Mostra Curtas Brasil 2008 – 1: “O Sonho da Casa Própria”, “Terra”, “Monkey Joy”, “Phiro”, “Perto de Casa” e “Muro”

O sonho da casa própria*, de Cao Guimarães

 

por Leonardo Amaral

 

Em um primeiro momento, é preciso dizer que O sonho da casa própria surge de uma vídeo-instalação de Cao Guimarães em que, uma conjunção de imagens de véus de noiva e véus de prédios são colocadas em um mesmo espaço em que se misturam vários sons de construção e músicas de casamento. Cao, mais uma vez, explora a forma, a observação, a beleza do detalhe e do tempo em cena. Os dois mundos, a princípio antagônicos, se fundem (não somente pelo artifício da fusão de planos, da textura) também diegeticamente.

 

No entanto, em certos momentos, o filme funciona bem mais como exercício plástico do que exatamente filme. Temos os dois desvelamentos conjugados com as misturas de sons, que vão se construindo e reconstruindo em cena, ao mesmo tempo em que o jogo se perde no meio do caminho para se transformar em momentos de contemplação que se tornam vazios.

 

Não é intuito aqui dizer o que é ou não é cinema, até porque essa pergunta é complexa e até certo ponto desconexa. Mas, ao observar O sonho da casa própria é possível inferir que ela faz sim muito mais sentido como seu projeto inicial, na medida em que o senso de observação desse produto em uma vídeo-instalação é bem mais potente do que quando esse se torna cinema. Ali, de alguma forma, ele se esvazia bastante.

 

*visto no 11º Festival Internacional de curtas de BH

 

Monkey Joy*, de Amir Admoni

 

por Leonardo Amaral

 

A animação de Amir Admoni se inicia com um navio com o título do filme e uma bandeira da Holanda, o que, de alguma maneira, causa um certo estranhamento do filme estar em um programa de curtas nacionais. Amir parte de um humor non sense para fazer uma crítica a uma sociedade atual voltada quase sempre ao consumismo exacerbado, sem, no entanto, o fazer de maneira veementemente política, ao contrário, o diretor faz um filme rico em nuances.

 

Monkey joy é, evidentemente, um brinquedo em que se tem um macaco que ri a cada risada humana e cresce a cada vez que ri. O que, a principio, parece interessante para o consumidor, passa a ser o incomodo na medida em que o brinquedo cresce. A partir daí, o melhor é se livrar do produto. Amir parte para o absurdo, coloca vários bonecos nas ruas de Amsterdan, abandonados pelos donos. Ele coloca a animação a imagens de arquivo para mostrar a invasão do consumismo. Ao final, uma imensa multidão desses causa um tsunami, imagem de um realismo-fantástico totalmente condizente com a realidade do mundo.

 

*visto no 11º Festival Internacional de curtas de BH

 

Muro, de Tião

por Gabriel Martins

 

Existem certos filmes que provocam algumas reações que a um primeiro momento são indecifráveis, complexas de serem registradas em texto. Muro é um exemplo. Há ali um turbilhão de imagens carregadas de signos próprios, mas que não se pretendem uma conexão e justificação conjunta em uma instância meramente narrativa. No filme, é trabalhado um significado maior do cinema que é o de ferramenta de expressão e construção, a arte que possibilita traduzir idéias e sonhos em um nível diferenciado das outras artes. E é sensacional ver um filme como Muro, que presta uma verdadeira homenagem à concepção cinematográfica e à própria noção da imagem como catalisadora de um deslumbramento com a subversão da física da vida e das coisas através da manipulação cinematográfica – sendo os recortes rápidos iniciais da corrida um contraponto ao uso de câmera lenta no final. Por isso o cinemascope como uma ferramenta não só visualmente impactante, mas representativa de um momento em que o cinema evoca para si uma atenção que estava sendo perdida para a televisão, nos anos 50. O formato, além de aproveitar a tela em toda sua extensão, satisfaz a necessidade de uma arte grande, um impacto do tamanho do cinema e que vêm de trem, lá de trás. Portanto, Muro consegue ir além de um discurso social existente em si (que é importante), para mirar um enumerado de sensações – algo como correr sem respirar – e atingir algo que é indecifrável: nossa relação de amor e inquietação com o cinema.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Muro, de Tião

por Ursula Rösele

Após seu trânsito por muitas mostras e festivais, já se constatou por diversas vezes o desafio que Muro representa para aquele que pretende criticá-lo, na melhor acepção possível da palavra (belo texto de Cléber Eduardo aqui): um filme-exercício sem método aparente, dando a sensação constante de um intermitente transpor de limites não definidos. E com certeza um desafio deveras agradável, pois oferece uma sensação de inesgotável abordagem que sempre nos convida à escrita, como forma de passear com ele nesse delirante espetáculo estético-espiritual-imagético. Talvez numa possibilidade de transcendência da própria sensação errônea de que o lugar da crítica seria o de complementar a obra no sentido de esgotá-la. O diretor com as imagens, o crítico com as palavras. Ledo engano.

Eis que surge Muro: pode-se imergir num bailado de hífens sem fim. Filme-instalação-delírio, experiência-estético-onírica, cinema-político-caótico-pós-Glauber e por aí se pode perder num devaneio em instâncias quase psicotrópicas de tentativas de compreender o – ainda bem – incompreensível. Fica a agradabilíssima sensação de confrontar-se com algo que grita para nós: não, o cinema não esgotou suas possibilidades de expressão. Estamos defronte um sem-número de possibilidades de referências, para uma ideia de filme sem referência, de diretor sem sobrenome. Há ali Eisenstein, há cinema experimental, há narração clássica, há teatro, poesia e revolução. Parafraseando o já parafraseado no catálogo da 4ª Cineop, Avellar citou uma frase de Glauber que se encaixa perfeitamente aqui: “a desrazão planeja as revoluções, a razão planeja a repressão”. Seguindo nas palavras de Avellar: “Sonhava (ele se referindo a Glauber) com uma expressão absolutamente impossível de ser compreendida pela razão dominadora, a ponto de que tal razão “se negue e se devore diante de sua impossibilidade de compreender”.

 

Muro só delimita através do título. Internamente, não há paredes de tijolos que impeçam sua hiperimersão num universo de imagens aparentemente não conciliáveis entre si. O cinema permite o sonho mágico de Mélies. Na TV, espaço retrógrado de imagens presas a um ideário mercantil-imbecilista, os homens ainda pisam na lua. Do lado de fora, na terra, no chão seco, resta a competição sem fim. Pelo close da câmera, pelo espaço no mundo, pelo primeiro lugar. A instalação inicial já anunciando o caos. Na seca, homens de terno. Em meio à cor, o preto e branco. Competição que começa numa infância não mais ingênua para lugares inimagináveis da mente humana: “Era uma vez um homem que de tanto pensar, considerar, ponderar, caiu”.

 

Estamos todos, sem exceção, numa selva. O muro está lá, para lembrarmo-nos de que o construímos. Ele traz a lembrança de nossas derrotas constantes, por uma vitória impossível. Contra o tempo não há possibilidade, logo, digladia-se com o mortal, o homem, o mercado de trabalho, o status social. O Muro das Lamentações em Jerusalém permanece de pé, no aguardo da chegada do Messias. Numa terra seca, sem religião, na corrida dos homens engravatados de Muro parece haver uma única constatação: o transpor encontra-se na linguagem, no Cinema. A projeção comporta esta capacidade de transposição. Já na vida além-tela, não há Messias a chegar. Sendo o cinema uma linguagem, faça-se dela, portanto, uma linguagem política.

 

*Visto na 4ª CineOP.

 

Terra, de Sávio Leite

por Gabriel Martins

 

Em sua obra anterior, Mercúrio, Sávio Leite não me convenceu. Por mais que contenha uma idéia de expressão marginal de animação, o filme não era o bastante para poder provocar algo além da pura experiência visual. Já este novo, Terra, me pegou. Se a proposta de retratar os planetas (presentes como títulos de outras obras do realizador) nos possibilita vislumbrar a alguma alusão ou referência, pode-se dizer que uma animação conturbada e caótica como esta consegue compactar algum tipo de experiência possível de ser filosofada sobre o nosso planeta. Narrada de forma instigante por Paulo César Peréio, a animação ainda se utiliza de uma trilha tensa (PexBaa), que nos coloca o tempo todo na vertigem da animação ali feita. A sensação é a de um caderno com desenhos sobre desenhos, a de complementaridade do traço ao mesmo tempo em que este próprio é subvertido em uma animação que não necessita de qualquer esclarecimento contextual: ela simplesmente existe. No todo, Terra propõe uma aproximação da realização da obra que nos traz a ausência de um começo e de um fim, como se o processo fosse eterno. E com isso, o nome “Terra” se encontra devidamente apropriado, titulando uma representação que, acima de tudo, propõe uma constante soma de traços e idéias - sendo que as idéias são, na verdade, os próprios traços.

 

*Visto no 2º CineBH.

 

Phiro, de Gregório Graziosi

por Ursula Rösele

 

A possibilidade do trânsito por diversas mostras é muito interessante, não somente pelo prazer cinéfilo em si, como por poder acompanhar a trajetória de diversos diretores que vêm sedimentando um espaço na produção curta-metragista brasileira e criando uma obra própria com traços autorais que acabam por se tornar perceptíveis.

Há dois anos, Gregório Graziosi transitou por diversos festivais com seu curta Saba, no qual estabelecia uma união metafórica entre a velhice de seus bisavós (e doença da bisavó, em especial) e os desgastes do tempo, simbolizados pelo apartamento dos dois e seus sinais de corrosão, como visgos nas paredes, no chão, na escada, etc. Em Phiro Gregório pareceu desejar esta continuação, uma vez que sua bisavó faleceu neste meio-tempo e a relação do bisavô com o espaço aparentemente também sofreu transformações.

O bisavô, Porphirio, agora transita pelos espaços vazios e Gregório mantém a matriz do filme anterior, porém, seu registro parece conter este olhar modificado pela ausência da bisavó, pela solidão do bisavô e por um apartamento (apesar de ser o mesmo) agora recebendo um olhar da câmera um pouco mais dinâmico, mais claro, talvez mais sereno com a ideia da passagem inevitável.

O bisavô, que em Saba lamentava a clausura das cidades e clamava pela tranquilidade do campo, agora menciona uma angústia de um espaço ainda mais próximo a ele, da cama vazia, da não presença que a câmera não pode mais registrar.

*Visto no CineBH 2009.

 

Phiro, de Gregório Graziosi

por Gabriel Martins

 

Seguindo uma linha próxima a Saba, projeto anterior também de Gregório Graziosi, Phiro encontra-se em uma sessão de documentário exemplificando, aliás, como esta rotulação é insuficiente. Phiro se desenvolve através de uma direção que, se fossemos analisar tradicionalmente, aproxima-se completamente da ficção ou, melhor dizendo, da encenação. “A presença da ausência”, diz a sinopse do filme. E é este vazio, tanto do quadro como do personagem central - que está sem sua companheira - o que traz ao filme uma melancolia traduzida no tempo, fiel à espera e à saudade. Mais uma obra interessante de um diretor que tem empregado um olhar peculiar à temática do idoso, esta que lhe parece uma matriz interessante.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Perto de Casa, de Sérgio Borges

por Gabriel Martins

 

É impressionante como a “imagem caseira” pode tomar um aspecto de singularidade e comicidade ao ser transferida para a tela e transformada em um filme com créditos, e não só mais um registro de memória familiar ou pessoal. Encontra-se o humor na situação, mas também no ato de registro daquela situação, como se a câmera se revelasse como meio e sujeito tornando o espectador um elemento terceiro, antes da câmera. Em Perto de Casa existe fortemente este pacto dos três elementos: os meninos atores, Sérgio Borges ator voz extra-campo / operador de câmera e espectador, este enxergando as crianças e o diretor-câmera- subjetiva. Os garotos comentam a distorção da imagem, interferem nela, envolvem o realizador, convidando-o para a cena.

 

Jean-Louis Comolli diz que: “Há, nos dias de hoje, um saber e um imaginário de captação de imagens que são muito compartilhados. Aquele que filmamos tem uma idéia da coisa, mesmo que nunca tenha sido filmado. Ele a representa para si, prepara-se de acordo com o que imagina ou acredita saber dela”. A grande magia de Perto de Casa é a tensão que coloca nesta afirmação de Comolli. Em uma cena específica, um dos meninos pergunta a Sérgio/ câmera se ele pode ficar pelado para brincar na areia. Sérgio permite e o garoto tira a roupa com completa naturalidade e fica brincando pelado. Um carro passa e o menino se esconde, com vergonha (real ou não, existe um medo do olhar do desconhecido). Como criança que é o menino basicamente não se considera como imagem, não pensa sua exposição a partir do registro, mas sim a exposição do momento, ao vivo. Sua interação com Sérgio traz complexidade como exercício de alteridade no sentido em que sua inocência é carregada de um “real” que explode qualquer vestígio de planejamento seja do lado de Sérgio, seja do lado dos próprios meninos – essa é a beleza do material “caseiro”, que normalmente envolve sujeitos já familiares.

 

Além de tudo isso, Perto de Casa consegue observar e escolher momentos engraçadíssimos que se complementam em um grande painel da liberdade infantil, a despreocupação com o contato físico como o atingir de uma cumplicidade de irmãos que provavelmente se perderá com o tempo. Que se registre, portanto, tornando único e especial. O filme de Sérgio Borges é um dos filmes mais belos produzidos pela Teia e carrega em si uma verdade da inocência presentes em planos como a incrível “puxada” final, exemplo que traduz toda uma construção que se dá no básico, na auto-mise-en-scène criada não no constrangimento, mas no inocente desprendimento infantil do objeto fílmico.

 

*Visto no CineBH 2009

 

Filmes Citados:

O Sonho da Casa Própria (idem, 2008/Cao Guimarães)

Terra (idem, 2008/Sávio Leite)

Monkey Joy (idem, 2008/Amir Admoni)

Phiro (idem, 2008/Gregório Graziosi)

Perto de Casa (idem, 2008/Sérgio Borges)

Muro (idem, 2008/Tião)

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