Todos Mienten, de Matías Piñeiro

por Marcelo Miranda

 

A ambição do argentino Matias Piñeiro neste seu longa-metragem é propor uma revisão da história da Argentina usando de ícones um grupo de jovens numa casa isolada. Daí, talvez, a presença tão forte de um gravador de áudio: registrar os fatos importa mais do que vivê-los de verdade. Misturando farsa, teatro, simulação e improviso, esses adolescentes vão acumulando na imagem de si mesmos a força de uma vida – de uma história, com H maiúsculo – que não é a deles, mas já devidamente guardada através dos sons e da ambientação audiofônica.

 

Todos Mienten vai, assim, se transformando num acúmulo de referenciais e palavras-chave que pouco diálogo encontra com a imagem correspondente. Há momentos fortes, em especial quando o grupo vai encenando os acontecimentos lidos por uma das garotas, ou ainda a tensão sexual que surge no contato e convivência entre os personagens – e essa tensão fica ainda mais poderosa na medida em que não podemos afirmar com certeza se ela realmente existe ou se é fruto de mais um dos jogos do grupo.

 

Piñeiro aparenta estar tão seguro do poder de seu artifício que o filme vai deixando de impactar nos trechos de maior força para ir se configurando num experimento simplesmente aborrecido. Sai a política da reestruturação histórica, entra o excesso de intrigas característico de um reality show de má qualidade. Pesa nessa impressão – que, obviamente, em vista da proposta do diretor, pode ser facilmente contestada se considerarmos que o tom “conspiratório” é integrante da engrenagem montada por Piñeiro – o histrionismo dos atores, que ultrapassa o naturalismo inicialmente buscado para chegar num tom de interpretação menos ambíguo ou expressivo do que simplesmente constituído de altas doses de canastrice.

 

Não se trata de um filme destituído de interesse. Mas a vontade de Piñeiro em dar conta da própria ideia de “reformar” a Argentina dentro de um certo ideário iconoclasta, no qual a liberdade existe quase sem limites (e, mesmo assim, corre seus riscos, aqueles mais típicos de países com democracias tão frágeis como os da América Latina) vai além de sua capacidade de realizador de cinema. Sobra muita vontade política e falta força de encenação. De qualquer forma, percebe-se, em várias das cenas, um cineasta em evolução, provavelmente nas vias de algum filme de total absorção e perturbação.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH

 

Filmes Citados:

Todos Mienten (idem, 2009 – Matías Piñeiro)

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