Mostra Campo Imperfeito 1: “Fome”, “Confronto (Série Unus Mundus), “A Situação”, “1716”, “Minhocão”, “Estômago Embrulhado”, “Loucura e Cultura”, “Costura da Mão”, “Oceano Possível” e “Watching Time”

Na apresentação da primeira sessão da Mostra Campo Imperfeito, um dos curadores, João Dumans, apresentou os filmes da tarde dizendo que a ideia deste compêndio de filmes é abrir o espectro com outras áreas da criação (neste caso específico, com as artes plásticas). Segundo Dumans, essas escolhas surgiram da percepção de uma espécie de urgência da criação, um conjunto de filmes cujo mote criativo estaria ligado à feitura de curtas a partir do material, equipamento, possibilidades disponíveis no momento por seus autores. Sigamos, pois, aos filmes:

 

Fome

por Ursula Rösele

 Fome é um curta carioca de 1972 que explora, de forma plástica, a ironia de uma situação de fome. Todos nós vivenciamos o plantar de um feijão na escola, a aparente facilidade do grão crescer em um algodão, com mudança aparente de um dia para o outro. Pois em Fome, Carlos Vergara formou a palavra “fome?” com grãos de feijão em um lugar que parece um algodão – ou algo do tipo – e filmou o processo de crescimento daqueles grãos, enquanto deformavam a palavra.

Assim, obteve um resultado metafórico esteticamente muito curioso, em que vemos ironizada uma situação que sabemos tão alarmante no país até os dias de hoje (muito mais, aliás), com sua câmera capturando de forma sutil aquelas mudanças, as nuances de sombra, textura e ainda um tom sombrio ao capturar um rosto ao fundo da pequena plantação, sorrindo de forma sarcástica para a situação.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Confronto (Série Unus Mundus)

por Ursula Rösele

Numa noite qualquer, em plongée, uma câmera captura imagens de jovens em um sinal, fazendo o que vemos já com enfado; malabarismos com tochas de fogo durante o período em que o semáforo está fechado. No começo apenas dois jovens, que vão se multiplicando à medida que o sinal abre e fecha. Saem dois, voltam quatro, saem quatro, voltam seis. O filme faz um jogo de sons e luzes com essa situação cotidiana, naquele que parece ser um experimento. Os jovens não pedem dinheiro, apenas fazem malabarismos, saem ao chamado de uma das moças, voltam em maior número.

A câmera, estática, observa a iminência de um caos urbano, assim que esses seres geralmente invisíveis a nós se transformam em oito e não saem ao abrir do sinal. O tom hipnótico e mecanizado atinge seu auge quando somos surpreendidos por um fade out e, no breu total, ficamos ensurdecidos com as buzinas, sirenes, gritos e acelerações de motoristas irados diante de uma situação que beira o fantástico, mas simboliza de forma muito interessante uma condição atual e constante de nossa rotina em grandes centros urbanos.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

A Situação

por Ursula Rösele

Em 1978, com uma câmera, uma garrafa e um copo, um rapaz encaminha-se para a fuga etílica enquanto brinda com sarcasmo à situação cultural, política, econômica e social brasileira. Resumindo, o curta é apenas isso. Ele pega o copo, brinda, bebe e pára. Pega novamente, enche o copo, brinda e o recoloca na mesa.

É visível uma relação de certa proximidade entre esses procedimentos de feitura de filmes com recursos escassos e o aproveitamento dessa escassez para fortalecer a mis-èn-scene que se pretende em suas construções. A Situação se repetia naquele tempo e se repete nos dias de hoje. A metáfora ainda é atual e é curioso vermos reunidos em uma sessão filmes com tanto diálogo possível ainda que de diferentes épocas.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

1716

por Ursula Rösele

Para quem transita em mostras e festivais com exibição de vídeos, o nome Marcellvs já é conhecido. Em 2002, o diretor iniciou uma série de vídeos que ele mesmo denominou “rizomas”. O fragmento da vez, 1716 possui a mesma estratégia da imagem pixelada e distorção do som como forma de ampliar as possibilidades de interpretação desses registros.

Em um lugar, as ondas do mar batem forte nas rochas e a trilha evoca o transtorno, a iminência do caos, da destruição. Figuras distorcidas passeiam pelo quadro, caminham até as pedras num caminhar que, de lúdico, toma para si um tom suicida, catastrófico. Marcellvs costuma trabalhar - com o auxílio de um interessantíssimo uso do som e de imagens - a duração do plano como componente instaurador de um desconforto, de uma experiência de imersão impositiva em que o espectador se vê impossibilitado de escapar. Bastante instigante, como habitual.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

Minhocão

por Ursula Rösele

Ao pensarmos na construção do Minhocão em São Paulo, inevitavelmente nos virá à mente uma sensação de enjoo. Diversos prédios empilhados em meio a viadutos por onde carros passam incessantemente. Lia Chaia resumiu em poucos minutos essas sensações em imagens. Utilizando-se de um recurso de rebobinação (rewind) do vídeo para evocar a sensação do vômito, uma garota (imagino que seja a própria diretora) regurgita imagens de prédios, diversos deles. Um a um, eles saem de sua boca amassados e retomam sua posição inicial. A garota os empilha, embaralhados em cima da mesa. A imagem na imagem, retratando com uma sutileza indisposta, uma situação absurda da cidade de São Paulo.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Loucura e Cultura

por Ursula Rösele

Remontando mais uma vez à década de 1970, o vídeo é a plataforma de auxílio de um discurso de revolta política. Nomes como Caetano Veloso e Hélio Oiticica encaram a lente da câmera, viram de costas para ela em protesto. Protesto pela censura, pelo silêncio que a eles se impunha. Protesto este conseguido através do enfrentamento da duração do plano, da subversão da ordem natural, evocando o contraplano com seu próprio corpo. A câmera captura, mas não domina, não pode exercer poder sobre aqueles que se voltam contra ele. Não existem, portanto, limites possíveis entre a loucura e a cultura. É louco aquele que pensa, é culto aquele que enfrenta a sanidade do olhar.

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

Estômago Embrulhado

por João Toledo

 

Curiosamente, todos os curtas exibidos no programa 1 da mostra Campo Imperfeito ou são da década de 70, ou dos anos 2000. Os filmes mais recentes – apesar de haver aproximações possíveis, a partir talvez da impotência diante do ambiente (da cidade ou da natureza), que deixa o homem à deriva, buscando formas de se impor ou se equilibrar nessa realidade instável – não trazem o caráter eminentemente político, comum a todos esses outros filmes realizados em contexto de ditadura. Porém, esse caráter político é ao mesmo tempo o que os revigora e o que os limita, pois a reivindicação política muitas vezes se torna maior que a forma. Em certa medida, todas as obras – em especial os dos anos 70 – podem ser mais facilmente classificadas de ensaios que de curtas-metragens, pois não lhes parece tão urgente a necessidade de propor questões cinematográficas quanto a vontade de discutir sua realidade política. E há sempre um discurso a permear o processo, algo que cria de fato uma aproximação com as artes plásticas – parte-se de um conceito prévio para se criar um ato significador que se traduza no impacto da uma imagem, de uma cena.

 

Nesse sentido, não há de fato muito a se dizer sobre Estômago Embrulhado ou mesmo sobre vários dos outros curtas da sessão, pois a potência possível desse filme está inscrita no próprio ato de devorar notícias que remetem à censura. A frieza do ato, o calculismo da escolha das reportagens, a naturalidade com que o sujeito engole vários pedaços de jornal cria um certo mal estar que parece ser fruto de uma certa brutalidade banalizada, e assistir a isso hoje só é possível enquanto processo de reconstrução do passado, pois já não faz tanto sentido na urgência de seu discurso.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Costura da Mão

por João Toledo

 

O curta Costura da Mão se insere muito claramente dentro de uma idéia de ensaio, onde a imagem única produz um sentido metafórico que tenta explorar, assim como os outros curtas, o mal estar numa violência consentida. Uma agulha costura aleatoriamente a pele de uma mão de punho cerrado; a agulha penetra a pele até esgotar a linha. A mão permanece ali, imóvel. Ao mesmo tempo que existe uma idéia de paralisia, de falta de liberdade, o punho representa uma imagem de resistência, de luta, de força. Esses dois símbolos conflitantes dividem o espaço de uma mesma imagem. A vontade ao ver aquilo é de que a mão arrebente as linhas num ímpeto de liberdade. Mas nada acontece.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Oceano Possível

por João Toledo

 

Um banheiro, várias bacias e baldes cheios d’água, uma mulher nua no meio, num pretenso oceano artificial. Trata-se de mais um curta que se constrói amparado por todo um processo de elaboração simbólica prévia, que intenciona investigar a construção da imagem a partir de conceitos artísticos atravessados pelo artifício da captação da imagem, mas que se perdem nesse meandro ao criar uma imagem que só serve para refletir uma idéia, um conceito, e que nunca se sustenta sozinha enquanto imagem mesmo, enquanto potência estética. Está ali muito mais um tratado analítico sobre o processo de criação simbólica – e o discurso é sempre maior que o resultado. Trata-se de uma imagem inexpressiva, de um oceano, decerto, impossível. Não estão ali fissuras e ruídos na comunicação visual e sonora de uma idéia; estão ali bacias cheias d’água, colheres de pau e um certo esgotamento de uma criação que se pensa mais relevante do que é. Nada de novo.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Watching Time

por João Toledo

 

Olhar quem olha. Esse encontro do cineasta com o olhar do sujeito já rendeu imagens das mais belas e significativas da história do cinema – o olho é uma espécie de janela do homem, que se abre para a emoção e os mistérios nele contidos. No entanto, o encontro com o olhar só pode de fato construir sentido e nos levar a algum espaço de compartilhamento de emoção ou criação de empatia na medida em que esse olhar se vê refletido em uma realidade, associado a um contexto. O olho só pode se abrir quando se associa ao mundo. É o mundo – o entorno do homem – que o torna sujeito, indivíduo, agente; sem isso, esses olhares não passam de signos perdidos, de imagens esvaziadas, banalizadas, arrancadas de sua realidade para se prestarem à lógica agregadora que os faz perder a singularidade a serviço de uma idéia qualquer.  O olhar sem o mundo é um olhar cego, inútil, que nada constrói e que ao invés de nos emocionar apenas nos entedia. Trata-se de um filme interminável, que se acaba a cada novo plano.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

Filmes Citados:
Fome (idem, 1972/Carlos Vergara)
Confronto (Série Unus Mundus) (idem, 2005/Cinthia Marcelle)
A Situação (idem, 1978/Geraldo Anhaia Mello)
1716 (idem, 2008/Marcellvs L.)
Minhocão (idem, 2006/Lia Chaia)
Estômago Embrulhado (idem, 1975/Paulo Herkenhoff)
Loucura e Cultura (idem, 1973/Antônio Manoel)
Costura da Mão (idem, 1975/Marcello Nitsche)
Oceano Possível (idem, 2002/Sara Ramo)
Watching Time (idem, 1979/Regina Vater)

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