O vampiro da cinemateca, de Jairo Ferreira

por Leonardo Amaral

 

Jairo Ferreira é um caso bastante particular de cineasta-crítico. De alguma forma, o pensamento crítico sempre se revela dentro do filme e vice-versa, casos inúmeros como Truffaut, Glauber, Rivette, Sganzerla. Mais do que todos eles, Jairo ensaia com imagens, ou faz críticas com elas, ou, quando escreve, o faz de tal maneira, que é notório o quão imagético e repleto de forma é aquilo que está escrito. Jairo Ferreira, mais do que diretor-roteirista-crítico-ensaísta, é um personagem do cinema brasileiro: se em O vampiro da cinemateca ele cita Zé do Caixão, na verdade ele se auto-revela, traz pra si também essa persona, como também o traz o Grande Otelo de O rei do baralho, assim como Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Orson Welles. Um autor que não pode se desvencilhar de sua obra, de seus filmes, dos vários tempos que ali estão: o vampiro da cinemateca, c’est moi, flauberianamente diria esse devorador-ursupador-antropófago-visionário em suas múltiplas faces (todas elas em tela) dentro do filme.

 

Na cabeceira da cama, Oswald de Andrade e o movimento antropofágico. A proposição de Jairo é devorar filme a filme, fazer uso da imagem sem pudor, dissertar sobre elas, desgastar, escurecer, embranquecer, alterar cores, formas, gêneros da película, engolir tudo, deglutir, digerir, regurgitar ou vomitar tudo, como o faz Carlão Reichenbach, de frente ao espelho, a expressar no rosto exageradamente o cinema, pra depois soltar o sangue pela boca. Vemos um Cidadão Kane, um O pornógrafo, um Taxi driver, O rei do baralho, O bandido da luz vermelha, Fuller, Welles, Lang, tudo jogado dentro de um liquidificador e misturado de forma a alimentar o vampiro, que precisa de película pra sair às ruas da cidade, transitar por elas em um carro. “Jornalista que prefere virar taxista”, para se descobrir nas ruas, lugar do cinema, lugar do plano, do choque, da luz que invade e estoura o enquadramento cinematográfico, como nos ensinou Rossellini ou Godard, ou Samuel Fuller e Robert Aldrich, grandes que usuram o gênero como desculpa pra se fazer cinema de gente grande. Jairo Ferreira quer  tudo e se insere no todo, na voz, na manipulação dessa e de outros sons, que ensaiam sobre a imagem, se misturam a essa pra não mais se dissociar. Qualquer palavra dita em O vampiro da cinemateca tem uma força imagética tal qual o conteúdo que se vê. Jairo diz que faz uma ode à forma cinematográfica, verdade substancial, o conteúdo está no ensaio, na auto-mise-en-scène, daquele que está na contramão de tudo: eis Jairo Ferreira, atrás dele uma placa com uma seta em sentido contrário.

 

Jairo é o vampiro que habita a cinemateca cuja voz ecoa por toda a cidade, por todo o cinema. Estamos diante da criatura que se constrói pelo olhar, por aquilo que vê, e se reproduz também pelo que fala: “Glauber precisa entender que jamais será o Maiakovski brasileiro”. Ele está em todo lugar, se impregna na película, a recoloca no espaço cinematográfico, assim como Oswald faz com a literatura, pra recriá-la (Jairo não se cansa de citá-lo). A obra antropofágica só poderia mesmo terminar nas imagens que se sobrepõem, e no corte seco que só coloca o fim ao filme. Vemos entrar em tela rapidamente o fim, mas estamos todos repletos em imagem, vampiros, somos todos nós.

 

*Visto no 11º Festival Internacional de Curtas de BH.

 

Filmes Citados:

O vampiro da cinemateca (idem, 1977 – Jairo Ferreira)

O rei do baralho (idem, 1974 – Júlio Bressane)

O bandido da luz vermelha (idem, 1968 – Rogério Sganzerla)

Taxi driver (idem, 1976 – Martin Scorsese)

Cidadão Kane (Citzen Kane, 1941 – Orson Welles)

O pornógrafo (idem, 1970 – João Callegaro)

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