
por Nísio Teixeira
Noel Rosa, o Poeta da Vila, longa de estréia de Richard van Steen, retrata uma das mais ilustres biografias nacionais: apesar da vida curta, ao longo de seus 26 anos Noel Rosa compôs cerca de 250 canções em uma das mais importantes carreiras da música popular brasileira, convivendo e/ou também compondo em parceria com grandes nomes como Francisco Alves, Mário Lago, Ismael Silva, Araci de Almeida, Wilson Batista, dentre outros.
De cara, então, o projeto de van Steen e equipe tem que se deparar com dois enormes desafios de foco: primeiro, o recorte que será feito da rica biografia de João Máximo e Carlos Didier, da qual se baseia o longa, além é claro, da própria escolha das músicas que serão incorporadas ao filme. Outro ponto de vista pode ser a maneira com que o filme de van Steen se insere no chamado ciclo da pós-Retomada.
Nos dois primeiros casos a tarefa é fácil e, por isso mesmo, injusta: como escolher sempre implica em renunciar, sempre vai se lamentar que determinado momento da biografia não foi contemplado devidamente (na comparação com o livro) ou que outros nomes, secundários é verdade, mas importantes na carreira de Noel, não apareceram. No caso destes “momentos” pode-se lamentar, no meu caso de maneira bairrista (mas o mal do bairrismo se aprende muito também com paulistas e cariocas) a rápida passagem de Noel por Belo Horizonte.
É claro que só esta viagem dele à capital mineira para tratar da tuberculose que ao final lhe seria fatal poderia render um filme. (Aliás, rendeu: foi um curta produzido em meados da década de 1990 pelo radialista mineiro Fábio Martins). No caso dos nomes, lamenta-se a ausência de qualquer referência a Marília Batista (outra importante intérprete de Noel ao lado de Araci de Almeida) e João Petra de Barros (apontado como sucessor de Francisco Alves, mas que morreu sob circunstâncias trágicas). Mas, além dos cinco citados no início do texto, estão lá também Kid Pepe e Cartola, por exemplo. No caso das canções, cada fã de Noel Rosa obviamente tem a sua lista e certamente ela pode não ser contemplada no filme. Particularmente, seria interessante incluir “Coração” (uma das poucas, senão a única, canção composta por Noel inspirada no curso de Medicina), “Linda Morena” (marchinha composta com Braguinha, colega do Bando de Tangarás, que depois tornou-se a famosa “As Pastorinhas”) ou “Não tem Tradução".
Mas, como dizia, qualquer crítica nesse caminho pode ser injusta: cabe avaliar não as escolhas possíveis, mas as escolhas feitas. No caso, do ponto de vista biográfico, Noel, seus amores, família e boemia e, em especial, o debate musical travado com Wilson Batista. Sob esse ponto de vista, o filme funciona muito bem, amparado por um elenco excelente, com a boa revelação do ator Rafael Raposo, encarnando o poeta da Vila de forma surpreendente.
Nesse sentido, a contribuição do filme dá um novo gás ao chamado ciclo da Retomada ou pós-Retomada (e Carlos Reichenbach que me perdoe!). Até pouco tempo, parte da cinematografia brasileira desta fase se preocupava em trazer à tona temas cujo exorcismo parecia ser necessário por parte da classe cinematográfica brasileira: retomar o sertão, a favela, a crítica aos regimes ditatoriais e incluí-los no retrato do país pelo cinema.
Neste ciclo da Retomada, as poucas biografias produzidas no cinema de ficção não escaparam desta espécie de exorcismo sobre a ditadura, seja do Estado Novo varguista (“Olga”) ou do período militar pós-1964 (“Lamarca” e “Zuzu Angel”, ambos de Sérgio Rezende e com o mesmo protagonista de Lamarca, Paulo Betti). No campo artístico, pouco ou quase nenhum filme foi produzido, ao contrário do que se observa no cinema documentário – como “Vinícius”, de Miguel Faria Jr.; ou as atrações deste festival como “Fabricando Tom Zé”, de Décio Matos Jr. e “Cartola”, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Uma possível quase exceção é “Garrincha”, também inspirado em uma biografia de sucesso, mas com um resultado bem fraco.
Assim, Noel Rosa – O poeta da Vila, tem o mérito de se apresentar como uma produção correta, biográfica, do cinema de ficção brasileiro para ser cantado e dançado pela nova e velha geração (uma surpresa agradável oferecida pelo público durante a exibição do filme na praça de Tiradentes). Um presente para os amantes da música popular brasileira e uma boa introdução aos neófitos fãs do poeta de Vila Isabel.
*Visto na 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes Citados:
Noel, o Poeta da Vila (idem, 2006/Ricardo van Steen)
Vinícius (idem, 2005/Miguel Faria Jr.)
Fabricando Tom Zé (idem, 2007/Décio Matos Jr.)
Cartola (idem, 2006/Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)
Zuzu Angel (idem, 2006/Sérgio Rezende)
Garrincha (idem, 2003/Milton Alencar)
Olga (idem, 2004/Jayme Monjardim)