
por Leonardo Amaral
A proposta de se apresentar um Tom Zé fora dos palcos, no seu dia a dia, é algo intrigante como o próprio personagem. O vocábulo personagem por si só nem cabe muito bem, pois não se tem a uma exata noção de onde tem início o artista e onde termina o homem Tom Zé. Talvez seja no exato momento em que o caos começa. Iniciando-se no movimento da Tropicália, o baiano de Irará foi além dessa proposta, cunhando um estilo próprio, misturando sons, fazendo de enceradeiras instrumentos musicais, sendo ao mesmo tempo caótico e harmonioso. Em seus arranjos atonais se encontra a figura de um ser inquieto, consciente de seu papel dentro da música e que se diz péssimo músico, compositor e cantor. É isso, segundo Tom Zé, que o torna tão singular. Ao cantar que o Largo dos Aflitos não é tão largo para a sua aflição, o autor dá o tom (com o perdão do trocadilho) de sua inquietude.
Para retratar um ser tão emblemático, o diretor de “Fabricando Tom Zé”, Décio Matos Jr., segue os passos de Tom Zé em algumas de suas turnês pela Europa. A imagem não é velada, pelo contrário, o que se tem é uma profusão de ritmos paralelos à narrativa, um Tom Zé filmado de baixo para cima, uma montagem que demonstra a ação impulsiva do compositor diante de sua obra, eixos de filmagem totalmente voltados para a representação de alguém complexo, capaz de se mostrar completamente vinculado aos seus músicos e de ter rompantes temperamentais quando oprimido.
Fora dos palcos, Tom Zé é acompanhado pelo olhar do espectador por meio de uma câmera que o apresenta muitas vezes de costas, em seu modo peculiar de andar e gesticular. Quando está falando, a câmera estática em Tom Zé se contrapõe em vários momentos às imagens que o compositor relembra em sua oralidade prosaica e bem humorada. Não se sabe ao certo até que ponto Tom Zé quer nos explicar para nos confundir ou nos confundir para nos esclarecer. Ao mesmo tempo em que se mostra uma peça no mosaico urbano de São Paulo (o consegue extrair através das imagens a relação complexa de Tom Zé nas avenidas e ruas da capital paulista), ele se concebe interiorano, de um Brasil que é pobre, feio, desgraçado, filho da puta (sic), palavras do próprio músico em relação à sua própria imagem e origem.
Mesmo em seu discurso verborrágico, em visões que perpassam a ortodoxia e heterodoxia (quase sempre não compreendidas), em sua pluralidade caótica, Tom Zé encontra harmonia no estar seguro, que como o próprio define, é uma forma de amor. Um amor incisivo pela música, pelo que faz, com nuances odiosas que se intercalam a uma infinitude de ações no show, guiadas quase sempre pelo improviso. O documentário passa longe de querer que todos gostem da música elaborada e original de Tom Zé, ele apenas tenta refletir o quanto tudo aquilo representa no mundo musical, ao mesmo tempo em que imprime uma tentativa de se decifrar um ser enigmático e recluso em seu olhar particular. A animação final é a síntese de tudo isso na qual um Tom Zé diminuto caminha e deixa para trás a grandeza de sua sombra.
*Visto na 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filme Citado:
Fabricando Tom Zé (idem, 2006/Décio Matos Jr)