

por Ursula Rösele
Em Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, Domingos de Oliveira elevou ao extremo não somente sua relação explícita com o teatro, como conseguiu realizar o filme numa câmera que garante uma terrível “qualidade” de imagem. Já se sabe que ele vinha se utilizando dessa “sujeira” possível de se conseguir com o digital há um tempo, e caminhava num crescendo, mais fortemente de Feminices para cá. Depois da bem humorada sigla B.O.A.A (baixo orçamento e alto astral) que representava principalmente Carreiras, filme express (8 dias) feito sem lei de incentivo e com baixíssimos gastos, Domingos dirigiu Juventude e este Todo Mundo Tem Problemas Sexuais.
O filme faz uma espécie de junção entre a peça homônima, também dirigida por Domingos e escrita por ele e Alberto Godin (inspirada em cartas recebidas pelo psicanalista para sua coluna ‘Vida Íntima’ publicada aos domingos no jornal O Globo) – e em filmagens das mesmas esquetes da peça original, assim como os mesmos atores. Assim se estabelece um crescendo interessante, no qual o filme se alterna entre – chamemos assim – cinema e teatro para quase se fundir em uma montagem interessante feita por Jordana Berg (montadora de Eduardo Coutinho que trabalhou recentemente em seu último longa Moscou); de certa forma, tomando-se todas as imensas proporções, existe um olhar para esse processo que permite identificar os traços da montadora em ambos os filmes.
Por se tratar primeiramente de uma peça de teatro, sua versão-cinema tem de início alguns toques mais fortes de diferenciação nas interpretações, às quais, nas filmagens da peça os atores são muito mais extremados e no filme falam e se movimenta de forma um pouco mais sutil. Porém, devido ao teor pastelão e escrachado do filme, acabam por transitar também pela linguagem televisiva. Como de costume, o forte ali está no texto de Domingos, que apesar de todas as piadas por vezes exageradas, têm um tom mais sofisticado, um sarcasmo, digamos, “Oliveiriano”. Ou, sabe-se lá, a ciência de ser ele o diretor da obra nos leve à clicheresca tendência de amaciar as fraturas estético-narrativas que o filme possa ter.
É um fato inegável que o ator Pedro Cardoso toma o quadro, o palco, a cena, os risos. E mergulha na pornografia do texto com a segurança que a vestimenta lhe garante, uma vez que o ator resolveu se voltar contra a nudez no cinema pós-Todo Mundo... Cardoso protagoniza tanto espetáculo quanto filme, e talvez o filme esteja tanto mais para espetáculo teatral que para cinema como potência. Voltando ao comentário da imagem televisiva, para além da imagem tosca obtida pela câmera de Todo Mundo..., não há a mínima preocupação de Domingos com a mise-èn-scene. Os enquadramentos por vezes são mais padronizados no filme-peça, que na peça-filme, o que certamente despotencializam esse tornar-se filme, tendo ele esta tão declarada ligação com a peça e este aparente desejo de também ser cinema.
E aí, de fato, cabe também mencionar o abismo que separam, neste sentido teatro-cinema como fusão, Moscou de Todo Mundo Tem Problemas Sexuais. Como bem comentou nosso editor ao final da sessão, este filme parece ser o Tudo que Você Queria Saber Sobre Sexo e Tinha Vergonha de Perguntar de Domingos, já que se sabe da admiração do diretor brasileiro em relação ao americano Woody Allen. Todo Mundo Tem Problemas Sexuais certamente é divertido, espirituoso, contém esse lugar de vociferar as hipocrisias e rir das impossibilidades do amor, mas, mesmo que o filme represente decerto interesse, a peça em alguns momentos parece conter mais qualidades que sua tentativa de ir para a sala escura.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
Feminices (idem, 2004/Domingos de Oliveira)
Carreiras (idem, 2005/Domingos de Oliveira)
Juventude (idem, 2008/Domingos de Oliveira)
Todo Mundo Tem Problemas Sexuais (idem, 2008/Domingos de Oliveira)
Moscou (idem, 2009/Eduardo Coutinho)
Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Vergonha de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex But Was Afraid to Ask, 1972/Woody Allen)