Curtas Série 5: Perto de Casa, Fronteira, A Casa de Cel. Messias, Minha Tia, Meu Primo, Jarro de Peixes, Alto Astral, Biografia da Mudança e Minha Avó Comemora Aniversário com Sua Amigas de Hidroginástica

Perto de Casa

por Gabriel Martins

 



É impressionante como a “imagem caseira” pode tomar um aspecto de singularidade e comicidade ao ser transferida para a tela e transformada em um filme com créditos, e não só mais um registro de memória familiar ou pessoal. Encontra-se o humor na situação, mas também no ato de registro daquela situação, como se a câmera se revelasse como meio e sujeito tornando o espectador um elemento terceiro, antes da câmera. Em Perto de Casa existe fortemente este pacto dos três elementos: os meninos atores, Sérgio Borges ator voz extra-campo / operador de câmera e espectador, este enxergando as crianças e o diretor-câmera- subjetiva. Os garotos comentam a distorção da imagem, interferem nela, envolvem o realizador, convidando-o para a cena.

 

Jean-Louis Comolli diz que: “Há, nos dias de hoje, um saber e um imaginário de captação de imagens que são muito compartilhados. Aquele que filmamos tem uma idéia da coisa, mesmo que nunca tenha sido filmado. Ele a representa para si, prepara-se de acordo com o que imagina ou acredita saber dela”. A grande magia de Perto de Casa é a tensão que coloca nesta afirmação de Comolli. Em uma cena específica, um dos meninos pergunta a Sérgio/ câmera se ele pode ficar pelado para brincar na areia. Sérgio permite e o garoto tira a roupa com completa naturalidade e fica brincando pelado. Um carro passa e o menino se esconde, com vergonha (real ou não, existe um medo do olhar do desconhecido). Como criança que é o menino basicamente não se considera como imagem, não pensa sua exposição a partir do registro, mas sim a exposição do momento, ao vivo. Sua interação com Sérgio traz complexidade como exercício de alteridade no sentido em que sua inocência é carregada de um “real” que explode qualquer vestígio de planejamento seja do lado de Sérgio, seja do lado dos próprios meninos – essa é a beleza do material “caseiro”, que normalmente envolve sujeitos já familiares.

 

Além de tudo isso, Perto de Casa consegue observar e escolher momentos engraçadíssimos que se complementam em um grande painel da liberdade infantil, a despreocupação com o contato físico como o atingir de uma cumplicidade de irmãos que provavelmente se perderá com o tempo. Que se registre, portanto, tornando único e especial. O filme de Sérgio Borges é um dos filmes mais belos produzidos pela Teia e carrega em si uma verdade da inocência presentes em planos como a incrível “puxada” final, exemplo que traduz toda uma construção que se dá no básico, na auto-mise-en-scène criada não no constrangimento, mas no inocente desprendimento infantil do objeto fílmico.

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

Fronteira

por Gabriel Martins

 

O ato de observar é tomado em Fronteira como objeto principal de construção. Esse próprio observar, em si mesmo, aliado à melancolia presente na junção da estrada com o olhar sobre a estrada, formam o filme. Andar de ônibus normalmente faz pensar, refletir, se perder nas idéias pela impossibilidade de se fixar em apenas uma imagem – tudo passa na janela, quase não se pára na estrada. Arthur Tuoto parece querer trazer este sentimento para sua obra, fixando-se em registros de ordem mais convencional dentro do contexto de documentários contemplativos. Com isso, faz com que o filme se torne um objeto propiciador de pensamentos diversos, como se as imagens introduzissem inúmeros temas em sua progressiva apresentação de olhar -> estrada -> olhar. Ao mesmo tempo, faz com que essa junção transpareça uma insuficiência da proposta como elaboração, principalmente nos tempos atuais, de já devido processamento e em certo sentido esgotamento da proposta deste olhar. Portanto, explora um minimalismo que se de um lado tem toda sua potência e abre caminhos, de outro se perde na sua própria proposta, impedindo que a obra seja maior.

 

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

A Casa de Cel. Messias

por João Toledo

 



A idéia de família permeou grande parte da sessão de curtas de ontem no Cine BH. Mais do que isso, talvez. Havia, em quase todos os filmes, uma idéia de família um tanto desafiada, ou pelas convenções cinematográficas dos curtas, por suas opções estéticas, pela postura diante dos personagens, por tudo o que escolhem manter em cena. Mas talvez o mais curioso de tudo seja que, no caso de curtas que buscam se centrar no seio familiar, muito mais do que nos curtas que retratam ilustres anônimos (gênero que proliferou nos últimos anos), parece haver uma dialética bastante mais rica onde a negação de determinadas posturas ou valores nunca exclui o enorme interesse de seus realizadores pelos personagens/familiares. A intimidade, de certa forma, contribui para um certo descontrole bastante saudável, que nos deixa num estranho limiar entre o afetivo e o ridículo.

 

A Casa de Cel. Messias é isso, em grande parte. O realizador/personagem vaga pela velha casa do avô, herdada por um tia, creio. E nessa espécie de genealogia quase arqueológica do passado – que se centra muito na casa enquanto representação da família –, Rodrigo Maia filma com a espontaneidade de quem descobre sua obra no processo, reenquadrando a todo o tempo, buscando detalhes, exaberbando a ruína do tempo. A câmera parece operar sempre negando o discurso da tia. Enquanto ela enaltece a imagem de um passado grandioso através da descrição do lugar, a imagem retrata apenas sua decadência, às vezes bela, mas sempre bastante evidente.

 

Do lado de fora, em determinado momento, enquanto parece buscar tudo o que de mais precioso aquele passado guarda, a câmera descobre no casal de tios o orgulho e a negação desse passado, uma eterna contradição entre a necessidade de se apegar a algo e a vontade de renovação. Os discursos do casal se sobrepõem, ambos falam ao mesmo tempo. A câmera se divide entre os dois, que disputam a relevância do discurso, da melhor representação do passado. Um passado sólido talvez, de pedra sobre pedra como insiste o tio, mas cuja imagem não permite que se esconda a ruína do tempo, as rachaduras com as quais convivemos quando retornamos ao nosso passado.

 

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

Minha Tia, Meu Primo

por João Toledo

 

Manipulado visualmente para remeter a imagens antigas de captação caseira e inclusive projetado em uma janela ligeiramente reduzida, de contornos arredondados, como o de uma projeção em 16mm, o curta de Douglas Soares gira em torno de sua relação com uma tia que ele considera bastante peculiar. O diretor – que parece bastante seguro nas intervenções e inclusive faz questão de explicitar sua manipulação diante da tia, fazendo-a repetir coisas e pedindo que responda a perguntas que podem interessar à imagem dela para o filme – parece sempre querer desafiar a tia sem nunca perder de vista que lida, de certa forma, com uma personagem, com alguém que se modifica diante da câmera. Ao mesmo que a manipula, não tem controle sobre ela, sobre sua verdade.

 

A senhora se revela, mas se esconde sempre atrás de sua personagem, dessa imagem de tia rebelde, escrachada, rica e desprendida.  Ainda que pareça às vezes bastante cruel o retrato que se faz da senhora, na insistência de filmar mesmo quando ela nega, de expor a solidão amparada no passarinho (o suposto primo do título), a força e presença daquela mulher sempre carismática em cena, que está no fundo sempre atuando e fazendo um certo charme quando nega a imagem, desmancha qualquer mal estar que poderia resultar de uma visão maliciosa do sobrinho. O que ele faz é transformar sua casa, esse espaço íntimo, no palco que ela parece ter sempre tido sob seus pés.

 

 

*Visto no CineBh 2009

 

Jarro de Peixes

por Gabriel Martins

 

A sensação de assistir Jarro de Peixes é a de que existe algo errado. Espera-se um vídeo, uma articulação clara, e recebe-se um material de arquivo de uma família Testemunha de Jeová de Juazeiro do Norte recebendo uma pessoa em casa para uma oração. Nada de muito especial, além da oração, acontece. Nada mesmo. E o “evento” não é filmado de maneira que busque alguma poesia ou especificidade da cena, é apenas filmado de maneira convencional e objetiva. O VHS antigo tem algo de assustador em si, algo de um amadorismo meio agressivo, ficcional, resistente, feio – talvez porque lembra morte. Salomão Santana está ali como montador, como que querendo sustentar no corte a afronta que é o tédio daquela experiência que teoricamente não nos pertence e não nos interessa. Seu posicionamento como diretor se dá claramente no corte final, bastante bruto e seco, como se quisesse nos afirmar a ciência da ousadia de nos mostrar aquela situação naquele tempo em todo seu aspecto orgânico. Esse filme vem para nos mostrar o quanto o conservadorismo do bom gosto se faz presente em vários sentidos no cinema, gerando inúmeros pressupostos do que seria ou não curta-metragem, vídeo ou filme. Jarro de Peixes apresenta uma possibilidade de um tempo para a imagem onde a beleza não está na elaboração da plasticidade, nem do som, nem do evento e nem do cineasta, mas nos aspectos indiciais de tudo isso e no que a presença de uma memória pode significar para o mundo.

 

 

*Visto no CineBH 2009

Alto Astral

por João Toledo

 



Possivelmente o filme mais terrível e ao mesmo tempo o mais engraçado da sessão – quiçá das últimas levas de curtas-metragens brasileiros –, Alto Astral é um filme que lida com um mal-estar sempre presente ou eminente, mas, de início, nunca exatamente palpável. Até que, de forma absolutamente abrupta, com a morte de um dos amigos, um corpo toma esse lugar e passa a ocupar fisicamente a instância do mal-estar que permeia o filme. Essa presença segue em tela pelo resto do filme, coberta por um lençol vermelho. Todas as ações remetem à idéia de diversão, lazer e alegria, ao espírito alto astral de férias entre amigos: a piscina, o jogo, a cerveja, a rede, o sexo. No entanto, há uma subversão de todas essas ações, que funcionam em uma chave invertida, uma lógica quase de inércia, de uma afetividade meio morta – um humor negro angustioso sobre uma juventude apática.

 

O que é mais rico no filme é que toda a situação, o surrealismo, o terror e a comédia somente existem através de sua mise-en-scène (como o momento, por exemplo, em que vemos a rede em primeiro plano e o corpo ao fundo e, de repente, uma mulher desce da rede e põe a calcinha. Alguns segundos depois, descem as pernas de um homem. São coisas que se constroem aos poucos, de forma inesperada, seca, acentuando sempre a estranheza e a indistinção entre o horror e o humor). Tudo ali é mise-en-scène, mesmo a precariedade da imagem, captada com uma câmera digital, serve à cena no sentido de criar um ambiente impreciso, uma indistinção da profundidade do espaço, um ofuscamento das expressões de cada um, tornando objetos e pessoas em formas não tão tangíveis, em coisas meio assépticas, meio incertas. Tudo ali é meio incerto. Não conseguimos adentrar aquele universo a ponto de compreender qualquer dos personagens. São apenas corpos vagando em torno desse constante mal-estar, vivendo como fantasmas ao redor da morte. Ao fim, resta nosso desconcerto e inquietude diante daquele universo. A vida nos aguarda fora da sala de cinema.

 

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

 

Biografia da Mudança

 

por Gabriel Martins

 



Não gosto querendo gostar deste filme. Sua aparente vontade de construção de algo é bastante legítima, quase emocionante e existe ali uma afetividade de registro bastante importante em certo sentido. Ao mesmo tempo, o produto final deste ato certamente possui problemas. Talvez o principal deles esteja na palavra, objeto tão complicado de se trabalhar no cinema. É muito difícil ter ao mesmo tempo sensibilidade com a imagem e com a poesia, principalmente quando esta almeja um significado que carece tempo de leitura, tempo de apreciação da palavra, o que o cinema, neste caso, não dá. Fica, portanto, certo vazio, frases soltas que procuram estabelecer algum tipo de relação com a imagem, mas que nunca conseguem, terminando apenas como frases. Com isso, a própria transitoriedade entre ambientes parece ser, dada a titulação de cada “capítulo”, apenas um exercício de deslocamento e de narrativa, e menos algo que permita àquelas imagens extrapolar sua função de exercício do diretor. Com momentos indubitavelmente belos, Biografia da Mudança é um filme doce, quase ingênuo, que torna uma pena a vibração da tentativa não ter se concretizado efetivamente.

 

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

 

 

Filmes citados:

Perto de casa (idem, 2009/ Sérgio Borges)

Fronteira (idem, 2008/ Arthur Tuoto)

A Casa de Cel. Messias (Idem, 2008/Rodrigo Maia)

Minha Tia, Meu Primo (Idem, 2008/Douglas Soares)

Jarro de Peixes (idem, 2009/ Salomão Santana)

Alto Astral (Idem, 2009/Hugo Pierrot, Gláucia Barbosa)

 

 

 

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