
por Leo Cunha
Dois curtas de alta comicidade, exibidos na Mostra Cine BH, trazem em comum um elemento cênico prosaico: um monte de areia qualquer, largado numa calçada qualquer. Os diretores Gabriel Martins (do Filmes Polvo) e Sérgio Borges (da Teia) tiram deste objeto cênico histórias e efeitos distintos, mas que guardam relações entre si.
Em Perto de Casa, dois irmãos pequenos (por volta dos 4 e 7 anos,possivelmente), Iel e Ravi, passeiam pela vizinhança, acompanhados pelo pai. Sérgio (que curiosamente é chamado pelos meninos de Serginho, e não de pai) permanece fora de campo, filmando de modo explicitamente amador, caseiro, sem interferir nas ações, a não ser para responder eventuais perguntas dos meninos. Os irmãos (e o filme) se detêm em um monte de areia, e encontram ali a brincadeira espontânea, o jogo, a provocação e mesmo o perigo. Os meninos entregam-se fisicamente àquele material e tratam a areia pelo que ela realmente é: um morrinho para subir, cair, escorregar, sujar-se,enterrar-se, esconder-se quando aparece alguém. É um contraponto interessante a quem espera a criança mostrada como um manancial de fantasia e imaginação. Brincar pura e simplesmente, corporalmente, com a areia, é fascinante e mais que suficiente para os irmãos.

Embora estejam sendo filmados – e o garoto menor fica pelado quase todo o filme, por iniciativa própria – os meninos parecem não ter noção da exposição que aquela filmagem implicaria. Não existe nenhum pudor de brincar nu diante da câmera, pelo contrário: sua vergonha só aparece quando ouve um carro ou uma pessoa se aproximando. Esta apreensão material e imediata do mundo deixa o espectador atônito.
Em Filme de Sábado, pelo contrário, a areia é apropriada pelo personagem – um jovem adulto – de uma forma muito mais próxima àquela que esperaríamos de uma criança. Para o rapaz, a areia é fantasia, é sonho, é metáfora da praia que o mineiro tanto gostaria de ter num sabadão como aquele. Ao contrário das crianças do primeiro filme, o protagonista de Filme de Sábado tem total consciência do perigo que pode existir se alguém estiver testemunhando quando ele rouba a areia da calçada para criar, no seu quintal, uma praia particular. Por isso volta ao monte de areia, várias vezes, mas sempre de forma furtiva e auto-consciente.
Enquanto a metalinguagem de Perto de Casa é mais implícita, e ligada a possíveis reflexões sobre a exposição e a exibição públicas, no Filme de Sábado ela surge como elemento definidor do próprio filme. Tudo gira em torno da criação artificial de um cenário idílico de praia, que para ser completo só precisa mesmo de um vendedor de picolé e de um sol escaldante. Daí, quando vem a chuva, a solução encontrada pelo roterista/diretor Gabriel é muito criativa e totalmente cinematográfica.
*Vistos no CineBH 2009
Filmes citados:
Filme de Sábado (idem, 2009/ Gabriel Martins)
Perto de Casa (idem, 2009/ Sérgio Borges)