Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, de Domingos de Oliveira

todo mundo tem problemas sexuais

por João Toledo

O cinema de Domingos de Oliveira nunca foi um cinema de rebusque visual. E também não sofre por isso, não tenta mascarar seus claros desencontros de câmera em meio à mise-en-scène improvisada e titubeante. Aqui, a concepção visual vem muito depois da necessidade de registrar um processo de desenvolvimento dramatúrgico e, também, cinematográfico. Trata-se de um cinema desembaraçado de um rigor de concepção visual, mas onde se apresenta, ao mesmo tempo, um vigoroso exercício de criação sempre muito interessado em seu próprio processo, em seu constante desmascaramento do processo. E esse desmascaramento de Domingos, ao invés de revelar as inverdades por trás da encenação, ao invés de tirar o espectador de seu estado de envolvimento emocional ao mostrar a câmera, o palco, ao romper com o artifício e se dirigir diretamente ao espectador, leva-o a um estado de ainda maior verdade, revela sempre que se trata do registro de um processo de auto-descoberta.

Domingos faz filmes sobre si, sobre os amigos, sobre filmes e peças de teatro. É um cinema transparente, do qual emana verdade. Trata-se, antes de mais nada, de uma brincadeira de fazer cinema. E essa liberdade auto-concedida lhe permite uma experimentação de recursos de tratamento de imagem que, em muitos momentos, parece bastante ingênua. Mas ao mesmo tempo são justamente esses momentos mais forçados, onde a música entra forte e a imagem é interferida de cores, contrastes, desfoques e saturações, que mais se percebe a existência de um agente externo ao universo do filme, se dilui a suposta verdade que traria o uso de uma câmera na mão - solta em meio a seus personagens; mais se percebe, enfim, a brincadeira de cinema do qual somos cúmplices, espectadores de processos em estado de criação – estados esses, talvez, perpétuos.

Em Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, Domingos faz uma comédia mais rasgada, não tão íntima e emotiva quanto a que fizera no filme anterior. Nele, o diretor conjuga sua encenação teatralizada com o próprio palco, com excertos de encenações de sua peça. Ele recria para o cinema as situações e concatena essas mídias de forma a deixar claro que o diálogo com o espectador é essencial, ele é parte do processo, tanto é que a atuação muda muitas vezes de acordo com a resposta do público.

Vale ressaltar também que foi a partir desse último filme de Domingos que Pedro Cardoso fez seu estranho manifesto contra a nudez no cinema. Isso cria, de certa maneira, uma expectativa negativa em relação ao filme, pois pode-se pensar que qualquer tentativa de investigar a expressividade das formas do corpo humano teria sido aplainada pelo pensamento estreito de Cardoso. No entanto, Domingos não sai perdendo; seu filme não é limitado pelo argumento retrógrado de seu protagonista. Ele trata, sim, de sexo o tempo inteiro. Mas trata-se de sexo e muito pouco de sexualidade. O sexo é apenas um assunto a nortear as histórias, mas não está na provocação do corpo. Não há sensualidade real, não há um verdadeiro jogo de sedução e insinuação. O sexo, portanto, se resume a tema da trama, e o foco da encenação é definitivamente o humor, o exagero de gestos, a exploração de tipos etc. Ressaltando sempre o patético do ser humano diante da sexualidade; aliás, é bastante positivo o fato do filme não pretender se entregar a nenhum tipo de sensualidade real, pois, para tal, correria grande risco de perder tanto o impacto de seu humor quanto e de não conseguir criar um estado honestamente lascivo.

O cinema de Domingos não parece pretender nada definitivo, ou mesmo definidor. É um cinema pequeno, sobre si, sobre os homens, amigos, amantes e especialmente sobre eles próprios. São obras abertas e que vão se completando a cada filme novo que surge – o próprio final propositalmente indefinido, em aberto, parece confirmar isso. E que surge sempre com um vigor cômico que impressiona, talvez não pelas piadas, mas pela sinceridade por trás delas, pela qualidade humana da dramaturgia onde o humor é menos instrumento de fazer o espectador rir e mais um elemento que ajuda a construir aquelas personalidades. Que Domingos continue, portanto, brincando ainda por muito tempo filmando seu fazer cinematográfico, e nos convidando a assistir e a participar de suas angústias e medos enquanto brincamos de rir, emocionados.

*Visto na 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Filmes Citados:

Juventude (Idem, 2008/Domingos de Oliveira)

Todo Mundo Tem Problemas Sexuais (Idem,2008/Domingos de Oliveira)

 

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