

por João Toledo
Por onde Começar? Como falar de um filme tão insano? Certamente não se pode empreender aqui qualquer tipo de busca por compreender as motivações e objetivos iniciais do cineasta, tampouco se o que está na tela é fortuito ou proposital, se é fruto de escolhas ou erros; o fato é que estamos diante de um filme que deve se expressar sem qualquer tipo de contextualização prévia.
Talvez seja loucura considerar interessante um filme que te dá tantas oportunidades para se detestá-lo, desde sua vulgaridade passando pelo simplismo como observa determinada realidade. Mas, diante do absoluto marasmo das produções cinematografias nacionais que, em geral, caminham sempre de forma previsível, é inevitável encontrar um certo alívio num cinema que, se não constitui nenhum grande exercício de eloqüência cinematográfica, ao menos se arrisca o tempo todo, explorando e tensionando todo tipo de estética e narrativa.
O filme se inicia de forma absolutamente bizarra e quase insuportável. Ele introduz a comunidade oriental do bairro Liberdade em São Paulo, e parece caminhar – em meio às micro-cenas videoclípticas intercaladas por elipses – por questões sociológicas em busca de algum tipo de discurso sobre a realidade brasileira. Só que esse discurso aparentemente realista surge no contexto inviável de uma total adesão ao gênero, e de uma construção bastante estetizante do universo retratado.
Em uma das primeiras imagens do longa, a câmera sai do chão, em meio ao povo, para subir ao topo de um prédio de onde o príncipe da máfia da muamba estende seus braços abertos como cristo e abre as mãos, soltando centenas de notas de 10 reais enquanto diz (com voz dublada em português) algo do tipo “o produto é falso, mas o dinheiro é verdadeiro”. E a sensação inicial é exatamente análoga; a de que há um cineasta de imagem absolutamente falsa querendo dizer qualquer coisa sobre a realidade. Só que, a partir de determinado momento, o filme parece abandonar completamente sua pretensão discursiva para seguir – se permitindo todos os excessos possíveis – por uma selva de imagens que passeiam entre um certo realismo contemporâneo da câmera na mão e a grandiloqüência estilizada de gruas em constante movimento, passando também por imagens cruas de aparência super8, outras de um grafismo geométrico quase abstrato, e também algumas bizarramente manipuladas na pós-produção. E, nessa selva louca, o filme abandona inclusive troncos narrativos inteiros, deixando de lado personagens e trajetórias várias, como a da prostituta que engravida.
É um filme, enfim, completamente perdido entre todo e qualquer tipo de registro. Consiste de pelo menos 25 propostas estéticas, parece ter 86 diretores de fotografia e 9 montadores para cada seqüência, trata a realidade brasileira como uma mitologia alienígena sem limite algum, mistura realismo e mangá, faz nevar em São Paulo, mata personagens que depois reaparecem vivos, se contradiz sem medo. Uma obra que ao mesmo tempo trata da corrupção política, contrabando de mercadorias falsificadas por mafiosos chineses, problemas sociais de jovens pobres da favela, tem uma longa e inútil sequência de le parkour e ainda encontra espaço para a mística indígena, pode até encontrar os limites de um país, em uma placa que diz “aqui começa o Brasil”, mas não encontra limites para o cinema.
Depois de tudo, chego a me questionar se a dublagem patética não seria intencional. É tudo, afinal, um jogo. A única regra: tudo é possível. Chega a ser irritante, e até mesmo tosco, como se estivéssemos a assistir algum daqueles filmes megalomaníacos que a sessão da tarde adorava passar há alguns anos, mas pode ser muito divertido quando a gente esquece que o Brasil existe e deixa de levar o filme a sério. Nada é real, tudo absolutamente saturado, não apenas as cores; o mundo para Yu Lik-wai deve ser de plástico.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
Plastic City (Idem, 2008/Yu Lik-wai)