
por Leonardo Amaral
O começo do curta-metragem de Pedro Freire apresenta dois corpos que transitam e se fundem, em movimentos em que as peles se encostam e que o corpo interage de maneira bela. O que vemos é um casal de idade mais avançada em seu ato sexual. A cumplicidade vem após, quando esses conversam e vão reconstruindo essa primeira cena vista. A princípio pensamos se tratar de um homem e uma mulher que já vivem juntos há anos, que agora moram sozinhos, com toda a família de fora. Os elementos do quarto e o desenvolvimento da narrativa nos apresentam um fragmento de vida, reconhecemos agora em um passado mais remoto as impossibilidades de vivência e convivência. As informações, às vezes dadas pelo diálogo, mas principalmente pela câmera que percorre o espaço intimo, nos dão conta de uma vida conjugados quase sempre em um futuro do pretérito: “poderíamos ter sido muito felizes, ter tido filhos, netos, vivido a vida toda juntos”, diz o personagem de Paulo José (aliás, impressionante como sua persona se impregna beneficamente no filme, sua atuação, por várias questões, traz aos planos uma presença impressionante).
Ao final de toda uma jornada, o casal dorme para acordar no outro dia. Ela, primeira a se despertar, observa o companheiro ao lado. Por um instante, o corpo está inerte, à medida que ela o chama. Após alguns instantes de apreensão, dela e do público, eis que ele acorda, a olha, o olhar é o mesmo, é cúmplice, como também o é o espectador. Momentos depois, ele sai, ela continua. O teu sorriso é o filme da cumplicidade com o corpo em cena, com os traços, com as impressões. Ela sorri brevemente, e numa obra de pequenos detalhes, esse já nos diz tudo.
*Visto no CineBH 2009.
Phiro, de Gregório Graziosi
por Ursula Rösele

A possibilidade do trânsito por diversas mostras é muito interessante, não somente pelo prazer cinéfilo em si, como por poder acompanhar a trajetória de diversos diretores que vêm sedimentando um espaço na produção curta-metragista brasileira e criando uma obra própria com traços autorais que acabam por se tornar perceptíveis.
Há dois anos, Gregório Graziosi transitou por diversos festivais com seu curta Saba, no qual estabelecia uma união metafórica entre a velhice de seus bisavós (e doença da bisavó, em especial) e os desgastes do tempo, simbolizados pelo apartamento dos dois e seus sinais de corrosão, como visgos nas paredes, no chão, na escada, etc. Em Phiro Gregório pareceu desejar esta continuação, uma vez que sua bisavó faleceu neste meio-tempo e a relação do bisavô com o espaço aparentemente também sofreu transformações.
O bisavô, Porphirio, agora transita pelos espaços vazios e Gregório mantém a matriz do filme anterior, porém, seu registro parece conter este olhar modificado pela ausência da bisavó, pela solidão do bisavô e por um apartamento (apesar de ser o mesmo) agora recebendo um olhar da câmera um pouco mais dinâmico, mais claro, talvez mais sereno com a ideia da passagem inevitável.
O bisavô, que em Saba lamentava a clausura das cidades e clamava pela tranquilidade do campo, agora menciona uma angústia de um espaço ainda mais próximo a ele, da cama vazia, da não presença que a câmera não pode mais registrar.
*Visto no CineBH 2009.
Phiro, de Gregório Graziosi
por Gabriel Martins
Seguindo uma linha próxima a Saba, projeto anterior também de Gregório Graziosi, Phiro encontra-se em uma sessão de documentário exemplificando, aliás, como esta rotulação é insuficiente. Phiro se desenvolve através de uma direção que, se fossemos analisar tradicionalmente, aproxima-se completamente da ficção ou, melhor dizendo, da encenação. “A presença da ausência”, diz a sinopse do filme. E é este vazio, tanto do quadro como do personagem central - que está sem sua companheira - o que traz ao filme uma melancolia traduzida no tempo, fiel à espera e à saudade. Mais uma obra interessante de um diretor que tem empregado um olhar peculiar à temática do idoso, esta que lhe parece uma matriz interessante.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Reza; dos alunos da rede pública municipal de Divino de São Lourenço
por Leonardo Amaral

Reza é um projeto coletivo de alunos da rede pública da cidade de Divino do São Lourenço, no interior do Espírito Santo. Um documentário que parte para a convencional colheita de falas, mas que imprime um olhar bem mais complexo e interessante para o objeto o qual pretende construir imageticamente. E por ser um filme dessa natureza, o olhar ganha uma dimensão ainda maior, ainda mais da maneira como se constrói e apresenta.
A morte é uma temática do entorno, bem como a fé: o grande mérito do curta-metragem está na forma como apresenta os casos contados por pessoas envolvidas com rezas que afastam os males. Um filme sobretudo da palavra, da maneira como essa é colocada, dita. Não por menos, se faz necessário filmá-la de perto, de se inserir: não por menos, as bocas dos rezadores são filmadas em um primeiro momento, antes que esses sejam apresentados; após esses instantes iniciais, vemos seus rostos, sua colocação em cena; em um terceiro movimento, uma das diretoras se coloca a dançar com uma das figuras do documentário, ato metonímico da relação entre aqueles que filmam com os outros que são filmados. É nessa relação que se dá a construção de Reza.
*Visto no CineBH 2009.
Tempo de cinzas, de Arnaldo Belotto
por Leonardo Amaral

Tempo de cinzas parte de um registro familiar de Arnaldo Belotto, que acompanha a mãe até o túmulo da família para que ela possa lavá-lo. A câmera colocada sempre à espreita, distante, mesmo diante da proximidade da família, mas com um afastamento com intuito de se filmar a ausência (existente, inclusive, nas fotos dos parentes sobre o túmulo da família Belotto). A mãe do diretor quase nunca é filmada de frente, muitas vezes se vê na execução da tarefa.
No entanto, apesar de todo rigor do curta-metragem, de todas as questões de ligação que traz consigo, no desenvolver de seus pressupostos, o filme, muitas vezes, parece refém exatamente disso, de sua proposta. E fica tão preso a ela, que, ao seu final, no belo plano em que a mãe se afasta do túmulo para ir embora, temos a impressão de que aquele momento é bem mais um registro do que o filme que se tenta construir.
*Visto no CineBH 2009.
Silêncio e Sombras, de Murilo Hauser
por Ursula Rösele

Em 2007 Murilo Hauser exibiu seu curta Outubro na Mostra de Cinema de Tiradentes. Um filme deveras angustiante, no qual uma jovem constata sua incapacidade de estar no mundo e trafega por determinados espaços até o momento em que o som seco de um tiro nos revela sua decisão pelo fim. Em Silêncio e Sombras esta angústia retorna, agora em formato de animação, o que não ameniza em absoluto a tristeza intensa do filme e um sentimento de impossibilidade iminente, de fora do lugar, algo para além da perda da infância.
Um transitar entre estados, num entre-idades que de tão indefinido só pode ser simbolizado pela ausência de cor e silêncio. De acordo com dados do site oficial do filme, o mesmo foi feito a partir do poema Der Erlkönig, de Johann Wolfgang von Goethe e do lied homônimo de Franz Schubert. As sombras desse indefinido de Silêncio e Sombras são pontuadas pela adaptação da peça Der Erlkönig feita por Franz Liszt e entoam perfeitamente com sua melodia a incapacidade de verbalização desse momento no qual a criança deixa de sê-lo sem saber.
*Visto no CineBH 2009.
Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel
por Ursula Rösele
A série 4 de curtas do CineBH 2009 foi toda pontuada por filmes no qual a força maior está na relação da câmera com o corpo filmado. Este registro é feito de perto, nos olhos, na respiração dos atores, na instabilidade dos olhares. Pela ordem da sessão, Arquitetura do Corpo é o último, o que de certa forma passa uma sensação mais serena, uma vez que a força desses corpos se dá não necessariamente em sua relação explícita e proposital com a câmera, mas através de seu movimentar e da dança; ou melhor dizendo, da preparação para uma apresentanção aparentemente decisiva.
Temos um crescendo dessas relações que desemboca fatalmente na arte. Começamos na relação doce entre um homem e uma mulher mais velhos (O Teu Sorriso) e o desfilar de seus corpos se acarinhando enquanto a câmera os acompanha, para seguirmos ao olhar contemplativo de Phiro, a expressão da crença em Reza – este num registro um tanto mais tradicional, porém de muita força expressiva – para o respeito solene de Tempo de Cinzas, a melancolia de Silêncio e Sombras e, enfim, o desaguar dos corpos em Arquitetura do Corpo.
O filme é muito preciso em seus enquadramentos, de um cuidado rigoroso com esse processo de escolha do que ficará nesse registro restrito do quadro (não por menos seu título se refere a um procedimento arquitetônico), porém, um pouco excessivo em sua duração, o que desequilibra um pouco a relação com o filme. De toda maneira um filme certamente interessante e belo, no qual o contemplar da câmera contrasta (positivamente) com o movimentar dos corpos.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
O Teu Sorriso (idem, 2009/Pedro Freire)
Phiro (idem, 2008/Gregório Graziosi)
Saba (idem, 2007/Gregório Graziosi e Thereza Menezes)
Reza (idem, 2008/alunos da rede pública municipal de Divino de São Lourenço)
Tempo de Cinzas (idem, 2008/Arnaldo Belotto)
Silêncio e Sombras (idem, 2008/Murilo Hauser)
Arquitetura do Corpo (idem, 2008/Marcos Pimentel)
O Teu Sorriso, de Pedro Freire