
Darluz, de Leandro Goddinho
por Gabriel Martins
O filme de Leandro Goddinho é certamente um dos curtas-metragens mais ousados que pintaram no cenário dos festivais nos últimos tempos. O peso da trilha-sonora alia-se a um digital bastante assumido, por vezes agradavelmente tosco, com múltiplos formatos de tela, compondo uma espécie de ópera do fazer cinema hoje. O filme claramente se baseia em várias influências – é claramente um movimento de antropofagia a todo momento – e ao mesmo tempo se afirma como algo do agora, algo do presente, seja por um viés um pouco mais óbvio do múltiplo registro (o celular sendo um bom exemplo) como num anseio estético de um discurso sobre o real, sobre o social e contextual do Brasil fragmentado por uma imensa amálgama visual.
Filme-liquidificador, em que o produto que sai desta batida é tão misto e surpreendente (em Darluz se ri e também se cala) que a constatação final é de uma audácia que ironiza a fotografia conservadora – como visto em outros filmes da sessão como, por exemplo, Quarto de Espera – para transmitir algo que é exatamente a idéia do liquidificador, a própria construção verborrágico-imagética. E o seu personagem é um vórtex, que se metamorfoseia em tudo com uma incrível potência física sem se deixar banalizar como personagem. E a força de Darluz está em tudo isso misturado, a curiosidade de um olhar de estreante de Goddinho com uma espécie de certeza na inexatidão de suas fusões.
*Visto na Mostra CineBH 2009.
O desgosto dá mais lenha pra pensar, de Felipe Altenfender Silva
por Leonardo Amaral
Em um primeiro momento, se lido por seu título, o curta-metragem de Felipe Altenfelder Silva nos oferece uma reflexão sociológica (e quiçá sociologizante) da violência no mundo. No nome, a expressão “dar mais lenha para pensar”, nas imagens, bem menos, o que se vê, é bem verdade, é uma imersão no gênero, com todas as provocações, riscos e interesses que esse tipo de cinema nos oferece.
O desgosto dá mais lenha pra pensar é um filme de terror, que flerta por vezes com um certo tipo de pastiche, mas, por ora, se entrega ao horror e o quão inquietante esse pode vir a ser. Uma família é levada a uma casa por terroristas, e, juntamente com incursões midiáticas, misturas com uma realidade que nos cerca, o filme investe no aprisionamento e medo dessa família, no entanto, de uma forma que remete diretamente ao espectador, cujos olhos são bombardeados por essas informações no seu cotidiano.
E ao romper com alguns preceitos tradicionais de narrativa desse gênero, ao sintetizar o conteúdo em um curta-metragem, Felipe joga com o espectador e seu anseio por ver. E ai é que vem o grande mérito do filme: diante das opções estéticas do digital, a aproximação com a realidade, mas com nuances de encenação clara (como no sangue, vermelho vivo e fake, que escorre na testa de um dos personagens), nem sempre nos é oferecido o todo, a cena em sua integralidade, a violência vem, em diversos instantes, do extracampo (ou mesmo com a manipulação do público com a inserção do título-frase ao final), para criação de seus suspense. Falamos aqui de um tipo de cinema de gênero e de toda a força que ele possui cinematograficamente.
*Visto no CineBH 2009.
Diante da Lei, de Alyson Lacerda
por Ursula Rösele

Para aqueles que frequentam diversas mostras nas quais são exibidos curtas-metragens, a apresentação de um filme com o nome Alumbramento já chama a atenção. A Alumbramento é o resultado da união de realizadores cearenses que fazem filmes nos quais estes mesmos realizadores se revezam para ajudarem uns aos outros em suas produções. Há um texto interessante sobre a turma Alumbramento do também realizador – só que paulista – Marcelo Ikeda que pode ser lido aqui.
Diante da Lei é um filme baseado em texto homônimo de Franz Kafka (aqui), sobre a angústia de um homem simples que está à procura da lei e percorre um estabelecimento – aparentemente do governo – repleto de portas, sujeira, desgastes, silêncios, sombras e a quase inexistência de outras pessoas. O filme é extremamente fiel ao texto (como vocês poderão ver ao lê-lo) e captura esta sensação inóspita da “espera eterna” muito bem.
A desesperança está em cada canto, exceto na insatisfação desse personagem que, relutante, entrega toda sua vida a esta espera. Como na obra sufocante de Kafka, não há muita razão aparente para esta impossibilidade e a lei é este não-lugar, essa condição indefinida do homem, na qual – para Kafka e para este curta, ao menos – não há a mínima, a menor esperança.
*Visto no CineBH 2009.
Quarto de Espera, de Bruno Carboni e Davi Pretto
por Ursula Rösele

Se há um termo que me ressoou ao longo de toda sessão 3 de curtas do CineBH (2009), este termo é: transtorno. Há uma inabilidade inerente, uma insatisfação que não se sabe muito verbalizar, que tornou a sessão quase insuportável – positivamente, se é que isso é possível. Em Quarto de Espera, como se imagina de tal condição ensejada pelo título (ainda mais uma cuja razão pelo esperar o espectador desconhece), basicamente nada acontece. Esperas em si contêm esse fardo do incômodo, do intolerável; não há muita necessidade de exemplificações.
Fato é que em Quarto de Espera há um rapaz com uma máscara de gás que, ou está em seu quarto, ou vagando por uma cidade cuja plástica realmente induz à sensação da falta de ar. Este rapaz busca oxigênio a todo tempo e só o que ouvimos dele é o som impaciente de seu respirar. A cidade parece evocar somente o desgosto e só o que resta a ele no encontro com outras pessoas é a agressão. O estado do filme, ainda que se denomine de “espera” parece de constatação enfurecida da incapacidade de alteração daquele estado. Falta ar, falta cor, falta lugar e, claro, falta diálogo.
*Visto no CineBH 2009.
Homem Provisório
por Leonardo Amaral

Em uma sessão em que fortemente impera a ficção, que logra em alguns trabalhos e nem tanto em outros, mais uma vez o que se tem aqui é uma tentativa de se contar uma estória, uma incursão nos preceitos narrativos para se lidar com um homem (Jonas Bloch) perdido em um tempo (daí vem a recorrência já desgastada ao p&b - apenas uma das fragilidades narrativas do filme).
É evidente dentro do curta-metragem uma preocupação acurada de Gibi Cardoso com o plano, com o enquadramento, como o movimento que ele incorre (vide o momento em que Jonas Bloch está na janela, de costas, enquanto a câmera se aproxima dele em um travelling muito bem executado). No entanto, os atores estão perdidos em cena, os elementos no plano parecem aleatórios, sem qualquer componente seja dramático ou mesmo estético, estão simplesmente lá, como também estão esses corpos. Ao final, nós, espectadores, temos a impressão de termos vistos um vazio, uma certa descrença na imagem, que se perde até mesmo sentimental e narrativamente, o que seriam os grandes intuitos de Gibi em sua proposta filmica.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
Darluz (idem, 2009/Leandro Goddinho)
O desgosto dá mais lenha pra pensar (idem, 2008/Felipe Altenfelder Silva)
Diante da Lei (idem, 2008/Alyson Lacerda)
Quarto de Espera (idem, 2009/Bruno Carboni e Davi Pretto)
Homem provisório (idem, 2009 – Gibi Cardoso)