Curtas Série 2: Afluentis, Kinetoscópio Mané Côco, Quando o Vento Sopra e A Maçã de Botero

Afluentis, de Rodrigo Savastano e Ram Pace

por Ursula Rösele

 

afluentis
 

Pode-se dizer de Afluentis ser um filme sobre um rio, primeiramente, uma linha de água que terá como destino inevitável desembocar em um rio ‘principal’, por assim dizer. Mas o curta consegue se desvencilhar de uma definição simples e partir para uma espécie de bailado em torno desse processo, no qual diversas pessoas metaforizam de certa forma esses afluentes, funcionando como fusões entre o rio e o pertencer a esses espaços, alterá-los com nossa passagem.

É um filme plasticamente impressionante, com belíssimos planos de espelhos d’água que reforçam essa impressão de união entre a terra, a água e as pessoas que por elas transitam. Um filme que alterna o silêncio do rio com a movimentação da terra, a rotina das pessoas com as sutilezas do fim do dia.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Quando o Vento Sopra, de Petrus Cariry

  

por Gabriel Martins

quando
 

Uma lata de filme, após ser apreciada pela última vez, é jogada para fora da janela para encontrar as mãos de um filho de catador de papel. Este transforma a película em rabiola de pipa. O cinema colocado por sua materialidade (em algum suporte o filme precisa existir) e, a partir dela, exposto como uma fragilidade bela, que nem por isso deixa de ganhar uma outra poesia. Mas os filmes se constroem na memória, ficam nela e se deixam transformar por ela. A vida parece seguir para o personagem interpretado por certo “homem em crise”, como a sinopse o caracteriza. As imagens de sua infância, ali contidas, já não parecem interessar mais como matéria. Neste jogo metafórico, simbólico, Petrus Cariry dança entre um forte interesse de construção cênica (a montagem com Joy Division é bem interessante) e certa obviedade do signo metafórico, como o plano do garoto “perseguindo” o carro com a pipa de película – a memória perseguindo o seu “dono”? Um filme cuidadoso visualmente que certamente possui rigor nas suas escolhas – vale refletir se estas, na totalidade do filme, realmente colocam algo de desestabilizador na linguagem ou se simplesmente refletem uma escolha de poética metalingüística um pouco mais óbvia.

 

*Visto no CineBH 2009.

 
Quando o Vento Sopra, de Petrus Cariry (2)

por Leo Cunha

 

Na beira de uma praia, um homem dirige calado. Ao seu lado, um adolescente escuta, com fone de ouvido, “Love will tear us apart”, do Joy Division. Pai e filho, lado a lado, mas incomunicáveis. O amor os separou? Talvez.  Seria uma imagem de pura amargura, se o carro não estivesse sendo seguido por um garoto de bicicleta. Nas mãos do garoto, uma pipa cuja rabiola é feita com fiapos de um celulóide. Algumas cenas antes, uma lata de filme tinha sido jogada fora pelo mesmo homem que agora dirige o carro. Foi desfiando o filme que o garoto construiu sua pipa. E a cena do carro ganha outras leituras. Se o amor, a vida, a música, se algo se interpôs entre pai e filho, resta a possibilidade de outro diálogo, mesmo casual e fortuito: o diálogo lúdico e poético entre o adulto e a criança desconhecida. Fiapo de filme, de arte, de esperança.

 

*Visto no CineBH 2009

 

 

 Kinetoscópio Mané Côco, de Firmino Holanda

por Leonardo Amaral

 

 

kinetoscopio
 

Kinetoscópio Mane Cocó revela seu falso artifício no início do curta-metragem, na primeira cartela, ao afirmar se tratar de um documentário com entrevistas, imagens de arquivo, etc. É bem mais do que isso, Firmino Holanda trabalha a imagem primitiva, o filme pré-Lumière, evidente em seu título – das incursões sobre a invenção de Thomas Edison, qual seja, o kinestocópio -, mas, definitivamente, em sua proposta de olhar para o pré-filmico, a imagem caseira, de casa, nos formatos hibridizados.

 

Após a cartela citada acima, vemos uma tela de exame de ultrassonografia de uma grávida qualquer, imagem essa inserida como imagem-primeira, mais do que uma alusão ao invento de Edison, o que temos é o estabelecimento desse jogo complexo, misturado as falas de um senhor que nos conta a história da chegada do primeiro kinetoscópio à cidade de Fortaleza em 1897, e como ele foi empreendido lá por um comerciante da região, Mané Côco. E foi esse mesmo homem a trazer os primeiros maquinários do cinema para a capital cearense, uma espécie de messias da imagem. Eis que a câmera percorre a cidade, visualmente borrado e primitivo, ao som desafinado do hino de Fortaleza: Firmino nos devolve esse primeiro momento do cinema, do registro documental conjugado ao primeiro olhar que, intrinsecamente, tinha os anseios da ficção, vide as encenações dos irmãos Lumière, mas principalmente o ensaio para o registro feito por Thomas Edison, em que o movimento é captado sim, mas conveniado à dança, ao corpo que se insere no meio para ali já se constituir como mise-en-scène.

 

Firmino Holanda busca na história e pesquisa das origens da imagem e do cinema em Fortaleza (algo que, com semelhanças e diferenças, Raya Martin faz, em Independência, ao contar toda a história da imagem nas Filipinas), para, de certa maneira, reafirmar o corpo em cena primitiva, mas agora visto de fora, no contexto atual, totalmente contaminado imageticamente.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

A Maçã de Botero, de Mariana Dias Weis e Moira Toledo

por Ursula Rösele

 

maça
 

Toda a série 2 de curtas exibidos ontem no CineBH 2009 tinham alguma relação com o ato mesmo de filmar, seja ele através de película ou vídeo. Para fechar a sessão, surge essa maçã, com um toque de transtorno, de insano, de caos, seja ele pela dificuldade de se lidar com o desejo, com a clausura do quadro, com a secura e crueza dos espaços.

 

De certa forma, algumas estratégias do filme trouxeram à memória o curta pernambucano Superbarroco, de Renata Pinheiro. A relação pode parecer absurda a quem teve a oportunidade de assistir a ambos, pois Superbarroco aposta na beleza plástica para fazer uso de uma linguagem metalinguística, enquanto que A Maçã de Botero investe no sujo, no subversivo, também estabelecendo uma relação metalinguística. Ambas as casas são usadas como espaços de projeção, seja nas paredes, portas e janelas de Superbarroco, seja no quadro pensurado na parede de A Maçã de Botero (o que não deixa de instigar essa sensação ampliada de clausura: do quadro para dentro do quadro para dentro de um quadro).

 

O curioso é que o filme pernambucano o faz através do uso de um ‘extremo’ barroco plástico – por assim dizer – utilizando-se das potências da película em termos de fotografia, da projeção como uma espécie lugar máximo da nostalgia, enquanto que A Maçã de Botero utiliza-se da mesma plataforma para metaforizar suas potencialidades em  termos do que a montagem e o cru da imagem podem oferecer, fazendo inclusive um percurso de montagem semelhante ao do vídeo (diversas janelas, tela dividida, o espaço do quadro como passível de ampliação de “n” outros quadros).

 

O período do Natal no filme também traz essa angústia que vemos (ou ao menos percebemos a tentativa) em Feliz Natal, de Selton Mello. Em A Maçã de Botero há um tempo alheio às hipocrisias convencionais do Natal, em que os sentimentos de amor e fraternidade se afloram.  O que vemos é uma sucessão de perdas: do amor de um casal, da inocência da infância, da própria figura emblemática do Papai Noel. Filme no mínimo, instigante.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Filmes Citados:

Afluentis (idem, 2008/Rodrigo Savastano e Ram Pace)

Quando o vento sopra (idem, 2008/ Petrus Cariry)

A Maçã de Botero (idem, 2008/Mariana Dias Weis e Moira Toledo)

Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)

Feliz Natal (idem, 2008/Selton Mello)

Kinetoscópio Mané Côco (idem, 2009 – Firmino Holanda)

 

por Gabriel Martins

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