Dia dos Pais, de Julia Murat e Leo Bittencourt (2)

por Gabriel Martins

 

Traçando paralelos muito fortes com Acidente, de Cão Guimarães, Dia dos Pais busca singularidades em cidades da antiga região do café, hoje abandonada. Neste filme percurso, onde a estrada tem papel fundamental como própria metáfora do caminhar, do descobrir, do transitório, a diretora Júlia Murat insere elementos pessoais da sua vida – a sua família é de Bananal, cidade que aparece ao final da viagem.

 

Se de um lado o filme traz um interesse muito grande no seu trabalho de composição, dedicando bastante atenção às particularidades de cada cena, na parte mais diretamente interventora, a inserção da diretora na trama, pouco há de real pacto entre filme e espectador, restando o ensaio de uma poesia que não consegue atingir de fato o seu fim. Existe um plano bastante longo, o melhor do filme, em que três homens estão conversando em um banco e depois de um bom tempo de conversa o trem chega atrás deles e passa por um longuíssimo tempo, quase eterno. Nesta seqüência, o filme nos oferece o que ele há de melhor e concebe um dos planos mais interessantes de filmes feitos nesta linhagem contemplativa. O diálogo entre os homens, imagem-banal, se mistura ao trem, imagem-espetacular, e o plano é bastante longo. E neste tempo longo, a partir de certo momento esta soma entre espetacular e banal toma um quê de melancólico, de efêmero, de belo. O plano longo e enquadrado de forma geral, ali, faz com a nossa relação com a imagem seja no mínimo imposta a um posicionamento sensitivo – ou isso ou você desvia o olhar da tela. E ao mesmo tempo em que é barulhenta a chegada do trem, a sua continuidade de movimento pela forma como é filmada, longa, torna-se comum, quase enfadonha ao mesmo tempo em que gera expectativa. Há, portanto, o movimento de ida e de volta, com o banal se tornando espetacular na síntese de primeiro plano e segundo plano e, depois, o espetacular retornando ao banal e nem por isso perdendo sua singularidade – esta está exatamente na retórica que o tempo e o enquadramento constroem para o filme.

 

Momentos interessantes, como este, vão sumindo rumo ao fim do filme. A espontaneidade do mundo contida no filme conquista pelo seu caráter desconcertante – interessante ver como muitas cenas são enquadradas como se fossem planos de ficção, acentuando certa estranheza do real – mas, quando a diretora opta por direcionar o filme para seu “eu”, torna-se por demais provocadora de uma poesia que, paradoxalmente, já estava no filme exatamente na não-provocação. Com isso, Dia dos Pais destaca-se apenas em alguns momentos, tornando-se um filme bastante irregular que se em muito ganha pela aproximação atenciosa daquelas cidades, muito perde na inabilidade de encaixar a poesia da diretora-personagem no filme.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Filmes Citados:

Acidente (idem, 2006/Cao Guimarães)

Dia dos Pais (idem, 2008/Julia Murat e Leo Bittencourt)

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