
por Gabriel Martins
Traçando paralelos muito fortes com Acidente, de Cão Guimarães, Dia dos Pais busca singularidades em cidades da antiga região do café, hoje abandonada. Neste filme percurso, onde a estrada tem papel fundamental como própria metáfora do caminhar, do descobrir, do transitório, a diretora Júlia Murat insere elementos pessoais da sua vida – a sua família é de Bananal, cidade que aparece ao final da viagem.
Se de um lado o filme traz um interesse muito grande no seu trabalho de composição, dedicando bastante atenção às particularidades de cada cena, na parte mais diretamente interventora, a inserção da diretora na trama, pouco há de real pacto entre filme e espectador, restando o ensaio de uma poesia que não consegue atingir de fato o seu fim. Existe um plano bastante longo, o melhor do filme, em que três homens estão conversando em um banco e depois de um bom tempo de conversa o trem chega atrás deles e passa por um longuíssimo tempo, quase eterno. Nesta seqüência, o filme nos oferece o que ele há de melhor e concebe um dos planos mais interessantes de filmes feitos nesta linhagem contemplativa. O diálogo entre os homens, imagem-banal, se mistura ao trem, imagem-espetacular, e o plano é bastante longo. E neste tempo longo, a partir de certo momento esta soma entre espetacular e banal toma um quê de melancólico, de efêmero, de belo. O plano longo e enquadrado de forma geral, ali, faz com a nossa relação com a imagem seja no mínimo imposta a um posicionamento sensitivo – ou isso ou você desvia o olhar da tela. E ao mesmo tempo em que é barulhenta a chegada do trem, a sua continuidade de movimento pela forma como é filmada, longa, torna-se comum, quase enfadonha ao mesmo tempo em que gera expectativa. Há, portanto, o movimento de ida e de volta, com o banal se tornando espetacular na síntese de primeiro plano e segundo plano e, depois, o espetacular retornando ao banal e nem por isso perdendo sua singularidade – esta está exatamente na retórica que o tempo e o enquadramento constroem para o filme.
Momentos interessantes, como este, vão sumindo rumo ao fim do filme. A espontaneidade do mundo contida no filme conquista pelo seu caráter desconcertante – interessante ver como muitas cenas são enquadradas como se fossem planos de ficção, acentuando certa estranheza do real – mas, quando a diretora opta por direcionar o filme para seu “eu”, torna-se por demais provocadora de uma poesia que, paradoxalmente, já estava no filme exatamente na não-provocação. Com isso, Dia dos Pais destaca-se apenas em alguns momentos, tornando-se um filme bastante irregular que se em muito ganha pela aproximação atenciosa daquelas cidades, muito perde na inabilidade de encaixar a poesia da diretora-personagem no filme.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
Acidente (idem, 2006/Cao Guimarães)
Dia dos Pais (idem, 2008/Julia Murat e Leo Bittencourt)