
por João Toledo
O argumento que usei para convencer a mim mesmo a entrar na sessão de Nova York, Eu Te Amo era de que, inevitavelmente, em uma longa sessão de curtas, sempre haveria um ou outro interessantes que fariam valer a sessão. Mal sabia eu o quão enganado podia estar. O filme, uma espécie de franquia picareta e oportunista do Paris, Eu Te Amo, sequer consegue ser o que todos os outros filmes de episódios inevitavelmente estão fadados a ser: uma sessão de curtas. Isso porque a franquia nova-iorquina tenta nos enganar, nos fazer crer que estamos assistindo a um longa-metragem, a um único filme – tudo bem que a maioria dos diretores ali não têm exatamente um estilo, o que facilita o disfarce entre os curtas, mas o resultado é de uma esquizofrenia total. Os projetos perdem sua autonomia completamente, perdem sua possível completude para se tornarem um meio. E o filme faz isso, essa desesperada costura dos retalhos, criando enquetes de transição onde os personagens dos vários curtas se cruzam pela cidade, em ruas, taxis e cafés, em momentos realmente constrangedores. Pois fica explícito na cena o esforço de criar espaços de interação e troca que não fazem sentido, que parecem retirados de uma novela, apenas para fingir uma fluência que absolutamente inexiste. Filme quer negar sua própria condição, e fracassa retumbantemente.
A cada curta, uma surpresa. Mesmo quando parece não haver mais jeito de piorar, novas imagens chegam para dizer como. Trata-se de uma espécie de experiência montanha-russa, num filme que parece ter sido pensado para nos atirar de um abismo, numa infindável superação dos constrangimentos anteriores. Já começa com uma Natalie Portman judia ortodoxa que, comprando jóias, tem uma pretensamente bonita troca intercultural com o vendedor, numa imagem que, com um horrível filtro fumê, parece ter saído de uma série religiosa da década de 70.
E seguimos por curtas que não são exatamente filmes, feitos de imagens e som, mas sacadas filmadas. São idéias, e nem mesmo boas. Brett Ratner, por exemplo, leva um garoto ao baile com uma jovem cadeirante. A frustração do menino é rapidamente dissolvida quando a garota, depois do baile resolve transar com ele, se agarrando aos galhos de uma árvore no Central Park para se manter suspensa, facilitando o caminho do garoto. Mais tarde, ele descobre que ela não é nem a filha de seu chefe tampouco deficiente física, mas apenas uma atriz fazendo um laboratório para um papel. Insuperável? Não. Há um outro em que realmente nada acontece; um homem caminha e uma mulher anda de metrô, ambos indo ao encontro um do outro – nunca vi tanto corte para o nada –, e a voz em off de ambos não deixa sequer um segundo de silêncio. Há outro em que Shia LaBeouf surge como um funcionário de um hotel que mais parece um corcunda do castelo, mancando como um aleijado, e falando com um sotaque que seria hilário, fosse o filme uma comédia. O patético da situação inacreditável se acentua quando ele, no lugar da cantora aposentada, se joga da janela do hotel.
A sucessão de imagens vergonhosas segue com enorme força, nos fazendo afundar de vergonha na cadeira diante de um verdadeiro aborto cinematográfico, numa experiência que não podia estar mais distante da linda Nova York dos diretores que realmente a amaram, que a trataram com o desejo e o interesse que passava menos por idéias espertinhas e modernas, e mais por sua realidade, suas formas, sua vida. É recomendável, depois do filme, para purificar os olhos, uma revisita ao Manhattan do bom e velho Woody, ou a qualquer outro filme, na verdade, que passe em qualquer cidade do mundo. Pois qualquer filme de cinema homenageia mais Nova York do que este. E já aviso: Rio, Eu Te Amo já já aparece por aí.
Filmes Citados:
Nova York, Eu Te Amo (New York, I Love You, 2009/Mira Nair, Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shekhar Kapur, Shunji Iwai, Joshua Marston, Natalie Portman, Brett Ratner, Wen Jiang, Randall Balsmeyer)
Manhattan (Idem, 1979/Woody Allen)