Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho

esmir

por Leonardo Amaral

 

Eis um problema recorrente e comum de um certo tipo de cinema ‘moderninho’ feito atualmente, essa tentativa de emular um universo, filmes pretensiosos, pretensamente sensíveis, que ensaiam abarcar os sentimentos de jovens, mas, pelo que pode ser visto em, por exemplo, Os famosos e duendes da morte, se mostra um exercício rasteiro e nada denso de construção desse universo, quase sempre irritantemente chato e boçal.

 

Temos uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, cercada pelo nada, vista de cima em um primeiro momento, perdida na neblina de sua madrugada e onde as pessoas têm uma relação próxima ao suicídio, muito por conta de lá ser um lugar onde, aparentemente, nada ocorre. Vemos ainda a relação de um jovem adolescente, que tem sua relação com o mundo a partir de sua casa, mediada pela internet, ‘artefato’ que o permite estar em contato com um alterego (que não por caso se chama E.F, ou seja, Esmir Filho, diretor do filme).  É assim que ele se insere no filme - exercício esse que permite dizer ser aquele um  universo bastante particular, no qual personagem e pessoa se misturam - aqueles dramas supostamente seriam também os dele, do escritor do livro que deu origem ao longa, de Ismael Caneppele, bem como de muito dos jovens.

 

 Percebemos a criação da atmosfera, do estranhamento inicial, em que a câmera vaga pelo espaço em busca de algo que não consegue encontrar. Em principio, uma diegese que, se bem construída, ofereceria um bom filme, no mínimo respeitável. No entanto, o filme se sabota no uso exacerbado dos clichês desse malfadado cinema contemporâneo com tendência reflexiva (reflexões de quem vive em um mundinho particular de shopping center), na montagem e na articulação dos elementos no plano.

 

Esmir Filho quer o limpinho, o brilhante, a fotografia bonita que esconde as deficiências de um filme que não se sustenta como longa, não existe estória suficiente ali, quase sempre preenchida com imagens desimportantes ao som de Bob Dylan: a impressão de que se tem é a de ser ver uma compilação terrível de péssimos videoclipes, que são justapostos, uma colagem que se é vista no todo não diz praticamente nada a não ser a chateação de ter que vê-las. A recorrência é sempre a mesma, objetivos de emular um cinema em que a câmera trabalha sem shutter para uma imagem mais tremida, fragmentária, incursões para um exercício cinematográfico mais sensitivo, sendo que esse somente funciona para aqueles que realmente acreditam no que colocam em cena.

 

De resto, uma masturbação imagética ruim de um diretor que tentou a todo custo tirar leite de pedra de um lugar limitado como narrativa. Se não se tem no texto a sustentação da duração, da narrativa, que se busque na colocação na integra de várias músicas, com câmeras em plongée, giratória a captar o movimento contrário de um carrossel, ou estrelinhas verdes que adentram o enquadramento e que nada dizem a não ser como estética vazia e visualmente nula. Eis a afirmação de Gilles Deleuze para um certo tipo de cinema: visualmente impecável, esteticamente nulo. Dos rostos em primeiro plano e as luzes desfocadas ao fundo, lindo de se ver, irritante de se continuar a assistir.

 

O filme tem sempre o medo de mostrar, prefere sempre o enquadramento como mutilador: tudo em visto em partes e de maneira superficial. O adolescente vai se masturbar e Esmir nos oferece muito mais um comercial de sabonete liquido do que uma suposta cena que faria o mesmo jovem a escrever na tela do computador que tem nojo de si mesmo. E é sempre esse o recurso da montagem, os cortes vão sempre negar a força do plano anterior, opções que, seguidamente, fazem com que o filme se esmoreça a cada plano. Problemas na articulação da imagem, pior ainda na construção dessas. Os famosos e os duendes da morte ganha uma sobrevida com a inserção da cena dos velhinhos, avós do adolescente que se denomina, na Internet como sendo o Tamborine Man; dois em cena já são a mise-em-scène, mas eis o filme novamente se ocupa de se sabotar ao cortar para o jovem na internet, novamente a falar velhos clichês de adolescentes desocupados, coisas como: “longe é o lugar para onde se quer ir”, “às vezes penso em partir”, “voe alto”, coisas presentes nesses vários blogzinhos do mundo inteiro.

 

Ao final, o garoto se encaminha para a ponte onde geralmente as pessoas se suicidam na cidade, uma espécie de zona de fuga. Lá reencontra o fantasma-Dylan que o acompanha em sonhos e devaneios. De lá se encaminham para uma estação de energia elétrica, onde, em suposição, em mistura de sonho e realidade, ele se ‘descobre’. Do local, ele vai até onde acontecem uma festa junina e se reencontra com a mãe, com quem, evidentemente (pois é um filme de adolescente feito com uma mentalidade da mesma idade), tem problemas de relação. Ambos dançam e choram enquanto a câmera os circunda. Seria ali uma cena forte, se não fosse todo o seu entorno, mas uma vez os problemas que acompanham todo o longa. Ao fim de tudo, o plano final, que diz bastante do vazio e do esteticamente precário de Os famosos e duendes da morte: o menino caminha na ponte, fora de foco, opção fácil e óbvio de quem se perde na própria imagem, até virar rastro: artifícios que de tão usados, tão recursivos, já nos cansaram, ao ponto de saber que mesmo desastroso, aquele é, enfim, o fim. Alívio.

 

*Visto no CineBH 2009.

 

Filmes Citados:

Os famosos e os duendes da morte (idem, 2009 – Esmir Filho)

 

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