

por Ursula Rösele
A ideia da câmera como este lugar do registro possível de uma memória irretornável, desse rastro do que possa ter sobrado de algo cuja existência somente resiste através do relato, talvez já tenha nascido clichê, o que não é necessariamente ruim. Lá em sua “Ontologia da Imagem Fotográfica” André Bazin já divagava acerca dessa batalha do homem com a morte, já que ela, segundo o teórico, é senão “a vitória do tempo”. O homem, portanto, é este ser efêmero que vagueia pelo mundo à procura de manter alguma coisa viva, mesmo que possa se dizer que ela já é uma existência já morta em si, visto que é projeção, visto que podemos pensar ser o cinema este lugar no qual as almas vagam e podem se repetir, mas não mais existem. Lá pelos anos 1950 Bazin já diria dessa nossa ânsia pela eternidade que “fixar artificialmente as aparências carnais do ser é salvá-lo da correnteza da duração: aprumá-lo para a vida”.
Enfim, seguimos, pois, registrando o que podemos: vestígios de corpos inertes no caixão, sorrisos em super8, tecidos, gravações, imagens de toda sorte. Resultam daí inúmeros documentários que abraçam esta causa do “impedir” a finitude. Cidades, histórias, igrejas, causos, artistas e poetas perdidos no mapa...podemos nos perder nos exemplos e certamente jamais poderemos numerar precisamente quantos filmes desse tipo são feitos por ano. Mau sinal? Obviamente que não, mas algumas fórmulas já soam um tanto exauridas, desgastadas nessa repetição incessante em busca da manutenção, do tornar vivo mesmo o que as próprias imagens já denotam como vazio, morto, perdido.
Dia dos Pais, de acordo com sua sinopse, é uma viagem por quatro pequenas cidades da antiga região do café, que hoje está abandonada. A câmera inicia numa subjetiva – digamos, de nós espectadores, daquele que registra, metáfora qualquer de imersão naquele espaço que o filme irá adentrar – de uma estrada e seguimos para essas localidades que nos serão nomeadas após um certo tempo em que ouviremos os tais causos, relatos, conversas aparentemente alheias à câmera. O filme tenta sair do velho esquema do depoimento do personagem que se volta ou para a lente ou para o entrevistador/diretor. Temos longos planos fixos dessas cidades, com uma primeira narração em off (a maioria delas são offs enquanto vemos imagens da cidade, dos campos, dos trilhos) que diz que aquele lugar já foi habitado, já teve mais vida, mais movimento. Vemos espaços vazios, trilhos de trem nos quais raramente o trem de fato passa, ruas de terra, pessoas que vez ou outra encaram a câmera, mas lutam bravamente para conseguir algum tipo de naturalidade, de soltura diante do aparato para, quem sabe, nos proporcionarem alguma fala engraçada, emocionante, com pitadas do acaso que esses diretores contemporâneos tanto parecem lutar para encontrar.
O filme tem lá seus bons momentos. Tendo a pensar que sempre haverá uma pessoa doce e interessante nesses lugares perdidos, um senhor ou senhora cujo olhar pode se perder na imensidão e lá vamos nós para um bonito plano que, sem a necessidade das palavras, metaforiza a nostalgia desse outro tempo. Sem querer utilizar argumentos redutores ou generalizados, Dia dos Pais parece um compêndio de Acidente (Cao Guimarães), Descaminhos (vários diretores) e do recente Notas Flanantes, de Clarissa Campolina. Vamos às cidades, vemos esses planos bucólicos que registram o vazio atual do lugar e ouvimos relatos que nos fazem vislumbrar de alguma forma esse tempo que se foi. O filme vai nessa toada até que chegamos a Bananal, cidade na qual a família da diretora morava (e alguns ainda parecem morar) e pronto: Dia dos Pais também parte pelo caminho do auto-retrato, da busca pelas origens, da nostalgia ou crueza desse avô que talvez não era tão bom assim, vai saber.
Temos o filme-memória completo: melancolia, saudade, reflexões perdidas no tempo que se foi, monotonia, paredes desgastadas, etc, etc, etc. Temos, inclusive, o off daquele que parece ser o pai da diretora, divagando também, nesse filme que mais parece uma colcha de retalhos de memórias e falas perdidas para chegar fatalmente no “eu”, nessa ânsia pelo encontro de alguma identidade, numa fórmula que parece fadada a transformar a câmera numa árvore genealógica da contemporaneidade.
*Visto no CineBH 2009.
Filmes Citados:
Acidente (idem, 2006/Cao Guimarães)
Descaminhos (idem, 2007/Marília Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)
Notas Flanantes (idem, 2009/Clarissa Campolina)
Dia dos Pais (idem, 2009/Julia Murat e Leo Bittencourt)