Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, de Werner Herzog

por João Toledo

O filme se inicia com um ato heróico do protagonista. E, no entanto, trata-se de uma imagem apenas, um recorte, coisa que tende a facilmente moldar nossa percepção das coisas. Pois o filme de Herzog vai fazer questão não apenas de romper com esse heroísmo de superfície, com essa imagem do espetáculo à qual apega-se em geral com tanta facilidade, mas, mais tarde, romper também com a imagem da superação, da redenção. Ela, afinal, também é espetáculo – toda imagem em Bad Lieutenant é apenas isso, apenas um índice de setas cegas, que aponta sem precisão para um conceito vago. As imagens são pistas sem solução, e não se pode, em um filme de Herzog, se apegar a elas como verdades, mesmo que de superfície. Todos os sinais, aqui, estão invertidos: o heroísmo que leva à podridão, e a entrega à podridão resultando em superação – ainda que temporária.

O herói promovido segue a ruir sua própria imagem, num insano espiral de autodestruição. E nada melhor para o processo de degradação que uma imagem de grandiosidade, no contra-fluxo de uma idéia de coerência de construção de personagem – pois não há aqui intenção moralizante, onde deve-se sentir pelo personagem repugnância ou atração correspondentes ao seu caráter. Herzog faz o oposto; deliberadamente transparente em sua escolha, nos entrega o próprio ator-espetáculo, numa performance onde o grotesco de seus excessos nos atrai inclusive pela não possibilidade de compreensão de um personagem tão extravagante a ponto de cambiar sotaques. E ali está, mesmo abjeto, atraente em sua força histérica, hilariante em sua auto-degradação.

 Aos poucos, acompanhando o personagem vivido por Cage, pensamos compreender algo sobre sua lealdade, mas tudo é provisório, todos os laços são facilmente rompidos, todas as escolhas, de tão arbitrárias, parecem aleatórias, e a mais plena estupidez é recompensada com o mais brilhante acaso. E no meio disso, nos momentos em que se pensa haver um diretor perdido em sua investigação desse universo de repetição e vivificação do espetáculo, perdido nas anti-escolhas de um ser degradado, surgem as imagens onde se apresenta a força de consciência por trás do filme, onde se revela que há um controle pleno por trás do processo, mesmo quando se deixa a coleira mais solta, dando espaço para o fortuito, há sempre uma demarcação de controle. Essas imagens são os momentos onde a insanidade do personagem se funde à insanidade do filme e surgem crocodilos de boca aberta ou camaleões invisíveis observados de perto por uma câmera ruidosa, no seu mover brusco e na sua granulação acentuada. Ou também no momento em que uma alma, uma alma-corpo, rodopia no chão, dançando sem parar até que um novo tiro a interrompe.

Pode-se argumentar que nosso apego ao personagem torna o filme o espetáculo que ele investiga, faz dele refém de sua própria busca. Mas um filme não é uma tese, um espectador não necessita respostas conclusivas; necessita-se, em um filme, de imagens. E delas cada um faz o uso que pode e que quer, seja para legitimar o grotesco e mergulhar no espetáculo, seja para negar a cumplicidade e se questionar sobre a validade de um rótulo. Herzog nunca foi um homem de respostas.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans (Idem, 2009/Werner Herzog)

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