
por João Toledo
Varda, em determinado momento do filme, entra em uma de suas instalações, uma casa feita com os negativos de um de seus filmes, atravessada pela luz, plena de imagens, onde ela diz se sentir à vontade, se sentir em casa. O que ela faz – e o que sempre fez, na verdade – é criar em seu novo filme mais um lar para si, um novo espaço para habitar, para repousar suas lembranças, memórias, imagens. Ela faz sua própria autobiografia em um filme que em nenhum momento empreende uma busca totalizante de sua vida e obra, que passeia sem muito rumo ou rigor por entre suas histórias e afetos, suas paisagens, as imagens de sua vida; desde as memórias reconstruídas de sua infância, às roubadas da infância de Jacques Demy, seu falecido marido, passando por muitas das histórias que atravessam seus filmes, histórias de um bairro ou de um jovem ator. E o filme acaba por se tornar uma espécie de confessionário de uma vida, uma despedida apaixonada da vida através do cinema, mas também uma espécie de reintegração de sua imagem às imagens dos que passaram, uma forma de reencontrá-los em filme, de torná-los vivos, seja através de uma imagem projetada, seja através de um gato com voz eletrônica, seja através de um espaço cheio de fotografias suas de atores e atrizes.
É complicado falar de um filme que não é apenas um filme, mas um acúmulo de filmes e experiências e imagens e vidas tantas que a todo o tempo sentimos o transbordar de tudo isso. E as imagens, numa confusa organização que as poderia dar um ar constante de processo (coisa que de fato são), ao mesmo tempo parecem tão definitivas; existe uma segurança de Agnès em sua criação que dá às imagens um ar de certeza, um poder e presença que as fazem parecer as únicas possíveis em seus respectivos momentos. E essa certeza no incerto processo de criação vai nos levando por entre essas tantas imagens (que a essa altura também já são memórias nossas), nos guiando por entre as lembranças desnudadas e despudoradas de uma mulher de incrível graça. Ao final do filme, envoltos por tantos fantasmas de imagem, nos resta a serenidade de observar o mar na praia deserta, casa de Agnès, cada de cinema, grãos de prata sob a luz, ondas de celulóide, oceano da memória e da vida.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
As Praias de Agnes (Les lages d’Agnès, 2008/Agnès Varda)