
por João Toledo
A que ponto chegamos, penso eu, às duas da manhã, depois da sessão surpreendente de Distrito 9. E a indagação vem menos com sentido pejorativo e mais como real estímulo por encontrar o espaço de um filme como esse, um local de origem, um destino final, uma explicação para seu surgimento e sua força. Blomkamp, como pudemos descobrir depois da sessão, deve sua incursão pelas imagens ao universo dos efeitos especiais, comerciais e games. Ou seja, ele não parte do cinema para integrar sua estética à das outras mídias. Faz o caminho inverso. Trata-se de uma geração que está a surgir que não apenas é formada pelo audiovisual em toda a sua pluralidade, como não desliga uma coisa da outra como quem separa analogicamente elementos físicos. O diretor parte, portanto, dessa indistinção total, dessa impossibilidade de separar registros e categorizar seu manancial estético, e se dispõe à confusão e ao caos total como única forma possível de experimentar um mundo via imagens.
O épico bizarro de um novo mundo (o nosso, renovado nesses realizadores que por aí surgem) em vários momentos remete ao patético e ao sacana em Tropas Estelares de Verhoeven ou em Southland Tales de Richard Kelly, ambas ficções apocalípticas de protagonistas improváveis onda há um real interesse por compreender e dialogar com a sociedade da imagem, do controle e imposição de visão do mundo via imagens. A diferença é que aquela vontade de compreender essa realidade vinha, nesses dois filmes, em forma de organização de formas com intenções críticas e políticas diversas; já em Distrito 9, existe antes de tudo uma desorganização total do acesso às imagens da ficção, cuja pluralidade, antes de ser conseqüência de uma concepção é uma inevitável conseqüência de quem já nasce imerso nisso tudo. O caos reina, de fato, aqui – na sua complexa mistura de uma câmera na mão se movendo loucamente, efeitos especiais de extrema fisicalidade e palpabilidade, entrevistas jornalísticas, câmeras de segunrança, pluralidade de pontos de vista, etc.
O curioso é que, se é em alguma medida político, numa espécie de metáfora possível das diásporas e das intolerâncias entre “raças” (seja lá o que isso signifique), é antes de tudo um filme que ridiculariza seu próprio esforço de falar da realidade na medida em que se entrega com muito mais força à narratologia e seus pressupostos, aos arquétipos e às redenções típicas da narrativa clássica em tom maior. A intenção cinematográfica ali é muito anterior a qualquer outra questão. A imagem, em seu gigantismo absurdo e francamente hilário, está acima de qualquer coisa – e ali, no meio de tudo, carregando consigo o enredo, não está um rosto conhecido, tampouco heróico. Está ali um sujeito qualquer, um nerd meio esquisito, patético em sua ambição e falta de graça, o homem médio, talvez. O protagonista (real) de um jogo de videogame (virtual).
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
Distrito 9 (District 9, 2009/Neill Blomkamp)
Tropas Estelares (Starship Troopers, 1998/Paul Verhoeven)
Southland Tales (Idem, 2006/Richard Kelly)