O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella

por João Toledo

Juan Campanella, diretor Argentino responsável por obras de alguma elegância e charme como O Filho da Noiva (disparado seu melhor filme), parece revelar com mais clareza aqui suas verdadeiras intenções ante a realização de uma obra. Ele parece um cineasta mais preocupado com uma certa reputação positiva inerente a quem produz filmes sensíveis com questões relevantes, de apelo e legitimação popular, que com o próprio filme enquanto resultado sincero de uma vontade de expressão – pode até ser uma impressão equivocada, mas ele vai precisar de um novo filme para desfazê-la. Nem tanto pela tentativa de dar um peso político, ambientando o filme em um passado conturbado da história Argentina, mas por sempre aludir a ele sem de fato confrontar as questões ali; o que interessa daquele passado é seu valor de embalagem, de mercadoria, a respeitabilidade imediata de um produto humanista.

Há também por parte do filme uma entrega sempre desajeitada ao gênero, buscando emular o cinema de investigação e suspense americano, sem nunca deixar de lado o romance ali no meio. Mas tudo isso é construído de maneira quase infantil: a forma como o acaso opera no filme, em como encontram o bandido, ou em como o herói sai de casa no momento em que vão matá-lo; a cena em que se manipula emocionalmente o bandido para que ele confesse, que parece ter sido tirada do mais vagabundo episódio de CSI; a megalomania sem razão de ser, por puro fetiche, de um efeito especial que se aproxima do estádio de futebol; a forma como tenta-se atualizar a dama e o vagabundo no eixo romântico do filme, onda a impossibilidade do amor não apenas inverossímil, mas simplista; a idéia já desgastada da narrativa ficcional do livro que se mistura à realidade do passado; a pieguice da seqüência inicial com clicheresca estilização da despedida emocionada na estação de trens; a idéia de surpresa final, que atende à lógica do gênero, mas nos entrega, sem qualquer indício prévio, uma bizarra escolha de vingança numa cena marcada pelo apelo emocional no tom das atuações grandiloqüentes.

Mas o pior de tudo não é sequer sua incapacidade de emular, esse caminhar vacilante de um filme que tateia suas fórmulas como se as nunca tivesse visto. O pior está em como Campanella rende sua elegância cênica, sua construção cuidadosa de cada plano (presente em seus outros filmes) ao recurso fácil da câmera que vagueia sem muito rigor por qualquer espaço, que opera uma certa instabilidade e dinamismo que lhe podem ter parecido bons enquanto conceito em um filme policial, mas que só fazem sujar a cena com seu movimento desnorteado. O sucesso financeiro do filme talvez legitime o projeto de Campanella de imersão no cinema de fórmulas (sem perder a reputação de artista sensível), e pode ser que em algum momento ele até encontre o equilíbrio entre suas vontades expressivas e seus respectivos gêneros. Meio descrente, torço por isso.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
O Segredo dos Seus Olhos (Os Secretos de Sus Ojos, 2009/Juan José Campanella)
O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, 2001/Juan José Campanella)

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