O Pai dos Meus Filhos, de Mia Hansen-Love

por João Toledo

Há algo que aos poucos vai sendo urdido nesse filme que é da ordem da invisibilidade, e que ao longo da projeção nos vai levando desapercebidamente para um abismo arrebatador, onde a impressão que se tem é de que aquilo que se passa à frente do filme (da câmera) parece indissociável daquilo que se corre por trás, tornando inseparáveis cinema, amor e luta. Nunca se sabe ao certo de onde vem sua potência, se é das meninas, de seu carisma e vida; se é da câmera-cúmplice que acompanha seus personagens sem nunca julgá-los; de uma ubíqua áurea de não-imposição de valores; da atmosfera parisiense e da força imanente de suas imagens, que povoam nosso imaginário cinematográfico; do peso de perda de um cinema que se esvai no meio do processo, do filme dentro do filme que não se completa, morre antes mesmo de nascer, é imagem tornada invisível.

Pois, guiados pelo invisível, seguimos assistindo àquela família criada no cinema, na cidade-cinema, e aos poucos extraditada por forças das circunstâncias, ou pelas forças de um tempo enfraquecido de amor pelo trabalho enquanto pulsão de vida. Ao personagem apaixonado por seu trabalho – pelo cinema – resta apenas a morte. Não acreditamos em momento algum; não queremos crer, tampouco vê-la, testemunhar seu grosseiro e brusco fim. Em um plano, o filme nos arremessa na vala das impossibilidades e nos deixa ali, inquietos, perturbados. Ele pega a arma, dirige pela cidade até encontrar uma rua vazia, desce do carro, segue pela calçada, alguns passos apenas, e cai. A morte, no cinema, não é assim; ela vem com aviso prévio, com explicação razoável, com subterfúgios estéticos. Talvez a morte do próprio cinema, um suicídio, uma renúncia.

O que Mia Hansen-Love parece empreender é uma busca pelo cinema perdido – que nunca se perdeu de fato, mas que aos poucos se encontra esmaecido, refugiado em guetos, compartilhado e dilatado em raros casos, vítima de sua própria condição de produto, e tornado aos poucos não mais que isso. O que a diretora faz é retomar uma certa carta de princípios embrionária da Nouvelle Vague. Não se trata aqui de emular o cinema de qualquer um deles, ou homenageá-los vulgarmente por via da forma, mas de partir de um mesmo princípio para chegar a uma mesma força. A intenção é ser fiel aos personagens, onde o ato de seguir é o mais perto que se pode chegar de compreendê-los; o propósito é de sair às ruas, à cidade, à realidade, falar de seu tempo, descobri-lo sem tentar sobre ele dissertar. Esse cinema que parte do real, de seu entorno, e que, como dizia Bazin, “acredita na realidade”, parece sempre adquirir propriedades proféticas, adivinhar, por meio de uma aguda sensibilidade no contato com o real, todos os rumos de sua época. O filme de Mia já é isso, sem que se precise de uma confirmação do tempo.

O artista e o cineasta, típicos personagens do cinema francês da vanguarda de 60, surgem aqui, em tempos mais pragmáticos, na pele do produtor de cinema, um viabilizador de imagens que realmente acredita no poder de todas elas, mesmo no erro em sua trajetória rumo ao acerto. É esse homem, que arrisca a si próprio por algo maior, quem está em extinção. Ele vira a memória a ser homenageada, a ser tornada significativa pela continuação de seu legado. Porém, seu legado de dívidas é mais poderoso que seu legado de paixão. E este último vai sendo aos poucos sufocado pela realidade (da morte, do liquidador, da falência, da escuridão). Chega a ser curioso notar que o filme de Mia se viabiliza em co-produção com a Alemanha, em uma obra que trata da falência de uma produtora francesa, do aborto criativo por falta de fundos, ou talvez por falta de crença. Se na década de 60 existia a esperança e a crença total na utopia da transformação, agora resta a fuga, o exílio, o reconhecimento de um tempo em que uma imagem honesta parece custar muito caro. A música final – Que Será, Será –, em todo seu esplendor melodramático, não faz apenas tornar redundante a melancolia do fim, mas revela o apego do filme ao presente e sua plena incerteza diante do futuro, suas eternas reticências frente à parede invisível do tempo, e ao mesmo tempo sua entrega total às contingências, pois o cinema de Mia não é feito porque se pode, mas porque se precisa.

Talvez a mais linda cena do filme seja aquela em que as luzes se acabam. É o fim, alguns pensam – é a falência do cinema, de um cinema de arte, outros metaforizam. Cinema, afinal, é luz. Mas eis que, pouco a pouco, eles a encontram. Encontram seus rostos apenas, sua humanidade, iluminada por velas. E, em seguida, quando saem à rua, encontram a luz das estrelas, se deparam com imagens possíveis, esperança possível na escuridão. Nesse momento, e sobre ele, não resta nada a ser dito – seria diminuir a força daquelas imagens, daquele cinema, força de amor e luta. Está tudo lá, afinal.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
O Pai dos Meus Filhos (Le Père de Mês Enfants, 2009/Mia Hansen-Love)

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