Insolação, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch

por João Toledo

O filme de Daniela Thomas e Felipe Hirsch não poderia ter chegado com maior surpresa. O curioso é que certamente esse filme faz mais sentido dentro do que se deveria esperar de Thomas do que a expectativa de uma mera continuação um tanto refém da obra de Walter Salles, seu parceiro habitual no cinema. E ela não apenas se desvencilha disso como também de várias armadilhas do cinema de Salles. Como, por exemplo, a matriz cinematográfica forte e sempre presente, filiando seus filmes a determinados paradigmas preestabelecidos, e também a questão social, tornando o filme no diagnóstico de uma população ao invés de investigar pessoas na relação com os espaços onde vivem. Daniela, por mais contraditório que possa parecer dentro do absoluto rigor que estabelece em cada plano de seu filme, é tanto mais generosa com seus personagens quanto consigo mesma ao se permitir estar livre para obedecer à lógica de seu olhar sem necessidade de remeter a nada e tampouco de dar qualquer dimensão sociológica para o entorno de forma a indicar caminhos de compreensão daqueles personagens perdidos no quadro vazio – ou cheio de formas, onde a abstração parece ganhar sentido de hostilidade absoluta.

Daniela Thomas traz consigo a experiência de cenógrafa no teatro para aplicá-la ao cinema – com total compreensão das diferenças entre os meios –, tornando toda uma cidade em um espaço agressivo e desumano. A impressão que se tem, a partir dos espaços recortados da cidade, não é a de uma solidão social a partir do vazio, da ausência de corpos, mas de uma hostilidade tamanha da forma, que torna os personagens em invasores daquele ambiente, em corpos estranhos. Não se trata, pois, do clichê habitual de seres perdidos no vazio, mas repelidos pela forma, quase que machucados pelo plano que os cerca. Não se pode pertencer ao espaço, àquele lugar terrível – ou aquele é o lugar dos personagens que não podem, não sabem, não querem pertencer.

Completamente anti-naturalista, a narrativa se desenvolve em diversos núcleos diferentes, onde as pessoas intencionam se relacionar umas com as outros de alguma forma, mas terminam sempre sozinhos em seus diálogos de surdos, habitualmente egoístas. A comunicação é imprecisa, nada parece mútuo – a entrega ao sexo quase que por inércia da jovem de cabelos curtos e é correspondida com amor (ou uma idéia de amor); a paixão do garoto de óculos é ao mesmo tempo uma experiência doce, de afeto, mas amarga, não correspondida; o segurança transa, morre e aceita o livro sem esboçar qualquer tipo de escolha, nega-se a apegar a qualquer coisa, inclusive à vida; a garotinha que seduz o homem, sente ciúme de seus sentimentos e é rejeitada com veemência; o personagem que busca a moça no aeroporto se apaixona solitário pelo mistério da mulher; o velho, que propõe uma troca, termina sozinho, desamparado, incomunicável, sua pulsão de vida se torna nostalgia do passado. E todos os desamores e dores do filme não são tratados como idéias vagas de sentimento, conceitos ou coisas etéreas; são físicos os resultados do desamparo, se manifestam no corpo, no seu calor, nas dores do caminhar sozinho, no suor e lágrima que se misturam, nas palavras que murmuram sem querer. São criaturas abandonados à vida, solitárias mesmo na troca, e belas ainda em suas atitudes errantes. Seres cheios de vida e de morte, esperançosos e desesperançados, perdidos em seu próprio espaço, seres de dor e de amor, de fim e de recomeço.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
Insolação (Idem, 2009/Daniela Thomas, Felipe Hirsch)

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