Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-Ho

por Gabriel Martins

 

É muito difícil um filme que envolve pequenas histórias dirigidas por vários diretores ser um grande filme. Ele é por natureza um filme irregular, que proporciona experiências isoladas como uma sessão de curtas. Certamente, então, muitas sessões de curtas são melhores que vários longas-metragens, mas o “longa-de-curtas”, pensado como uma peça inteira, muito dificilmente será uma obra-prima. Vale pensar como ele também é quase sempre um projeto extra-filme, um convite a uma experiência, no caso de Tokyo! e outros exemplos como Paris, Je t’Aime e Crianças Invisíveis, uma reunião de diretores e diretoras que desejam expressar um ponto de vista sobre uma cidade ou um tema. O filme permanece, portanto, como um experimento, quase um exercício de versar sobre algo pré-estabelecido e organizado.

 

Pode-se dizer que Tokyo! aproveita muito bem sua estrutura sem tentar de qualquer forma conectar as histórias, priorizando a idéia do exercício e do curta-metragem como peça individual. O fato de ter menos filmes, se formos comparar com casos como 5 Frações de uma Quase História e o já citado Paris, Je t’Aime, Tokyo! fica na frente, aproveitando o maior tempo cedido para cada filme.

 

Interior Design, o média de Michel Gondry, traz boa parte das suas características habituais, tal como o surrealismo, a câmera na mão acompanhando seus personagens e os truques realizados no set (cadeira substituindo mulher e etc). Gondry faz um filme bem estranho, que discursa, assim como em Rebobine, por favor, sobre o crescimento, a responsabilidade e o fazer artístico como uma fuga para a seriedade do mundo. Os protagonistas de seus filmes, que sempre sofrem algum tipo de deslocamento, se encontram em algum momento com uma abstração do real constantemente traduzida pela plasticidade da direção de arte – complementada pelos truques habituais do diretor. Interior Design toma caminhos inesperados, mas consegue sustentar a sua credibilidade com planos criativos e uma espécie de sensação final de bem-estar de compartilhar uma paixão estranha que Gondry emana pelas suas escolhas narrativo-visuais.

 

Merde, de Leos Carax, literalmente parte a sessão ao meio, dada suas particularidades. Saindo de uma experiência estranha e ao mesmo tempo doce de Gondry, somos jogados no esgoto do personagem Sr. Merde: um ser bizarro que sai pelas ruas de Tokyo espalhando o caos. Visualmente impactante – a cena em que o personagem distribui granadas pela cidade faz uma bela utilização do extra-campo -, o filme mistura imagens em película com imagens digitais, provocando um aspecto curioso de ficção intersectando realidade e vice-versa. Ao mesmo tempo, brinca com a idéia da cada vez mais instantânea disseminação de informação, que pode transformar um evento e/ou uma pessoa em algo sagrado, máximo, uma imagem-espetáculo. O Sr. Merde, brilhantemente interpretado por Denis Lavant, impõe completamente o seu físico no filme, quase como se submetesse a câmera ao seu tempo.

 

Como soma dessa interação organizadamente desorganizada entre câmera e personagem, obtém-se um resultado duramente sarcástico com a dramaticidade desta figura mutante que traz em si uma marca traumática, sendo aparentemente filho de um estupro (o personagem vive entre ruínas de tanques e bandeiras kamikazes e alimenta um sentimento de vingança contra todo o povo japonês). Merde proporciona uma quebra interessante na sessão: é um filme catástrofe em ritmo diferente do de Interior Design, mas, ao mesmo tempo, complementa o filme de Gondry no que diz respeito a uma maneira de lidar com o cinema que foge do realismo para mirar uma reflexão maior sobre a construção da imagem.

 

Por fim, o média Shaking Tokyo, de Bong Joon-Ho, narra a história de um personagem que não consegue sair de casa. Em uma situação particular, ele se apaixona por uma entregadora de pizza e decide ir atrás dela. O grande mérito de Joon-Ho é transpirar em cada plano um talento enorme como esteta. Por mais que o filme trilhe por muitas vezes caminhos óbvios (desde a locução em off até a sua resolução final), fica muito presente a capacidade que o diretor tem de transitar no universo particular da ficção. Uma cena é fundamental: a entregadora desmaia e o personagem principal, sem saber o que fazer, percebe que ela tem uma tatuagem de um botão onde está escrito “coma”. Naturalmente ele aperta, provocando um leve arrepio na garota que, em seguida, acorda.

 

São estes pequenos elementos, que mesmo não apresentando particularmente uma grande idéia, refletem uma espécie de entrega total a uma proposta, efetivamente uma coragem de traduzir o pensamento criativo sem se ver na obrigação de vinculá-lo a qualquer verrosimilhança. Mais que isso, o diretor ainda consegue filmar esta pequena idéia, e outras ao longo do filme, com uma sensação clara de cinema como uma linguagem própria (sendo o terremoto a prova maior da câmera como elemento narrativo e indutor). Dançando com seu próprio tempo, o episódio de Joon-Ho sustenta uma entrega presente nos outros filmes que não nos deixa nenhuma outra sensação a não ser a de que existe ali uma forte paixão pela execução de idéias.

 

Tokyo! é uma boa sessão que, se não consegue se afirmar efetivamente como um longa-metragem, ao mesmo tempo não nos deixa em nenhum momento sentir falta deste enquadramento, provocando uma ótima sensação a respeito dos trabalhos destes três diretores com idéias realmente cinematográficas.

 

*Visto no Indie 2009.

 

Filmes Citados:

Tokyo! (idem, 2008/ Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-Ho)

Paris, Eu te amo (Paris, Je T’Aime, 2006/ Vários)

Crianças Invisíveis (All the Invisible Children, 2005/ Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Kátia Lund, Jordan Scott, Ridley Scott, Stefano Veneruso, John Woo)

5 Frações de uma Quase História (idem, 2008/ Cristiano Abud, Cris Azzi, Thales Bahia, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo, Armando Mendz)

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