
por Leonardo Amaral
“Taking Woodstock is a trip”. Assim diz o material de divulgação de Ang Lee. E é uma viagem em que os passageiros parecem estar todos deslocados. Taking Woodstock é um filme fora do quadro, que sonha com Hair – cada um tem o sonho que merece –, mas acorda no século XXI, quarenta anos após o evento hippie que marcou certo tipo de geração nos EUA e no mundo, mas que, visto com os olhos de hoje, gera questionamentos; sob o olhar passadista, incorre num tipo de obra datada, o que, de certa maneira, pode ser algo desinteressante. Mas eis que o filme de Ang Lee – como já, dito fora do quadro e também de seu tempo – nada diz de uma tentativa de reconstrução de um momento.
Se algum dos personagens usa ácido lisérgico, estão lá os velhos clichês dos filmes que tentam representar tal estado psicotrópico: dá-lhe efeitos de imagem. Para representar o dinamismo de uma época, Ang Lee não vai se furtar em dividir a tela em duas, três, quatro frações; se existe algum movimento dos personagens na construção do festival, estão lá as subpartes na tela, cinco ou seis cenas. Momentos em que a técnica nada diz necessariamente, apenas é utilizada.
Os tripulantes da viagem de Lee insistem em ser simpáticos, mas estão todos soltos, deslocados. Em alguns dos primeiros minutos é até possível se apegar ao jovem judeu que tenta pagar a hipoteca da casa e, para tanto, se coloca a organizar um evento que toma proporções gigantescas. Mas Ang Lee insere tantas camadas, tantos efeitos, que tudo isso se perde.
Ao final, toda a sujeira deixada pós-Woodstock, plano geral, acordes de guitarra, a limpeza de tudo aquilo que sobrou. Talvez seja mais interessante que o Woodstock pintado e estilizado por Ang Lee.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filmes Citados:
Taking Woodstock (idem, 2009 – Ang Lee)