
por Leonardo Amaral
Em A leste de Bucareste Corneliu Porumboiu já havia proposto uma exploração do extraordinário em um cotidiano pacato. No filme, um programa de televisão e a discussão: ocorreu ou não a participação da pequena cidade no interior da Romênia na revolução de 1989? A discussão é apenas um pretexto de Porumboiu para explorar as nuances daquele microcosmo e, de certa maneira, revitalizar de forma bem-humorada os resquícios de um passado marcado pela ditadura comunista. Na verdade o que ele vem fazer é uma rica reflexão sobre como os acontecimentos afetam, de certa maneira, um determinado ritmo de vida. Um filme que olha para o passado com uma grande vontade de discutir o presente, sendo este metaforizado por dois personagens que, na medida em que tentam reconstrui-lo, acabam por desconstruí-lo.
O filme de 2006 não deixa de ser uma primeira observação do cotidiano, que, em Politist, adjectiv ganha maiores nuances, tanto estética como narrativamente. Nelu é um policial que percebe um ato suspeito em jovens que supostamente estariam traficando drogas em um beco no subúrbio de Bucareste. O seu grande dilema é saber ou não se o que ele acredita é verdade e o ‘pretexto’ é a sua tentativa de descoberta. Se em A leste de Bucareste havia a discussão de algo ter acontecido ou não, em Politist, adjectiv nada realmente ocorre. Corneliu Porumboiu constroi um filme de vários momentos que vão ocorrendo durante a busca de Nelu. A maioria deles marcada por uma grande ironia, propiciada pelo enquadramento fixo, duração do plano e uma mise en scène minimalista que levam ao quase boçal cada uma das situações.
Nelu precisa de documentos para comprovar suas suspeitas e, para tanto, vai ter que aguardar horas em escritórios notadamente burocráticos. O tempo do filme e seu ritmo vão dizer diretamente desse personagem. Sobre A leste de Bucareste, há três anos, Eduardo Valente dissera que uma de suas características é a de ser uma comédia quase rasgada e muito engraçada. Politist, adjetiv, nesse sentido é mais sútil, mas mesmo assim, por meio de uma ironia bastante fina, nos oferece uma ‘filosófica discussão’ sobre o ato da consciência, sem deixar de tecer comentários acerca da gramática romena, além de nos explicar algumas das metáforas de uma canção que durante um dos planos (que, como tantos outros, funciona quase como sketchs) é repetida no mínimo três ou quatro vezes.
Um novo país vinte anos pós-Ceausescu, com novas questões e um diferente cotidiano. Explorando todas essas nuances, Corneliu Porumboiu faz um ótimo filme sobre o não-acontecimento.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filmes Citados:
Politist, adjetiv (idem, 2009/Corneliu Porumboiu)
A Leste de Bucareste (A fost sau n’a fost?, 2006/Corneliu Porumboiu)