Palavra Encantada, de Helena Solberg

por João Toledo

O documentário de Helena Solberg busca traçar um paralelo entre a idéia do trovador e do cantor/poeta das várias músicas populares brasileiras. Existe todo um aparato por trás das entrevistas, que atendem sempre ao tema tratado e são bem pontuais. O uso de travelling e de uma iluminação artificial sempre cuidadosa denotam um esforço do filme em criar um ambiente propício para que se desenvolva uma narrativa bem clara e muito bem delineada. Não há, no entanto, uma vontade de ficcionalizar nada; esse cuidado atende à vontade do filme de se auto-conduzir, de tratar das questões que lhe parecem caras. Isso não significa, no entanto, que haja uma manipulação dos discursos dos entrevistados, sim, um condução delas.

Trata-se, portanto, de um filme muito seguro, alicerçado já de saída em suas propostas – que, para nossa felicidade, são bem interessantes. Há diversas reflexões sendo feitas enquanto é retomada toda a história musical do Brasil. As visões se completam, mesmo quando seguem direções contrárias. Há uma riqueza muito bonita nos discursos e na vontade de transformar a cultura. É um filme singelo, comovente como não poderia deixar de ser, mas há um elemento central que deve ser aplaudido ali: a memória.

Não apenas a memória no sentido de resgatar-se a importância da música em determinados momentos históricos, mas também, e principalmente, de resgatar-se uma série de registros históricos importantíssimos. O filme é bastante atencioso aos detalhes e consegue ilustrar todos os discursos com imagens correspondentes, que vão desde uma apresentação teatral na frança de uma peça musicada por Chico Buarque, até apresentações e entrevistas lendárias de Caetano à época de Alegria-Alegria. No país do esquecimento, onde o passado é ignorado e os registros largados às traças, me parece fundamental que haja um cuidado por atualizar essas imagens, e mostrar, inclusive, que serão sempre imagens atuais por serem imortais registros da força cultural brasileira.

Ao final, quando Adriana Calcanhoto fecha o filme com a canção Minha Música, a letra parece especialmente significativa para o que representa o documentário. Assim como a música não quer nada além de simplesmente ser, de apresentar-se enquanto obra e deixar que sua harmonia e sua melodia se imponham para que as outras coisas sejam apenas conseqüências disso, também o filme parece querer não mais que praticar esse resgate, esse registro singelo, e deixar que qualquer coisa seja simples conseqüência disso.

 *Visto na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Filmes Citados:
Palavra Encantada (Idem, 2008/Helena Solberg)

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