
por João Toledo
Jia Zhang-Ke dá continuidade, com 24 City, a sua busca por retratar o estado de transformação da China contemporânea. Se em Em Busca da Vida ele trabalhava com a ficção, aqui usa o documentário como veículo narrativo e aborda a história de uma antiga fábrica que está sendo desmontada para a construção de um enorme e moderno complexo habitacional.
Nos planos que se permitem uma maior abstração, em meio às formas que o espaço escolhido proporciona, há sempre um impacto diante da virtude expressiva de Jia, que potencializa esteticamente aqueles espaços reais (inclusive na ficção).
Ao longo do filme, há um constante movimento de deslocar-se entre o coletivo – a imagem grandiosa, a massa – e o individual – o detalhe, o rosto, cada história. Jia cria uma trajetória que se contrabalanceia justamente nesse trânsito, e em como as histórias tão íntimas e melancólicas são ao mesmo tempo bastante representativas do peso do tempo, das transformações. E é justamente no tempo que jaz característica fundamental do cinema de Jia. Ele deixa pesar, em cada relato, em cada minuto falado ou calado, todo o tempo que se passou no trajeto da história.
A China de Jia é tratada como um grande canteiro de obras - e ele desenvolve aqui um cinema que se posiciona justamente no vórtice do processo de transformações; ele registra a mudança profunda que hoje ocorre no maior país do mundo, percebe com sutileza as contradições por trás dessa modernização X memória. Há um passado sendo obliterado, literalmente derrubado, demolido; com ele, toda uma identidade do homem chinês, do que significa ser chinês. Nesse processo de perda de identidade, Jia resgata fragmentos, porções de lembranças melancólicas, restos de memória em forma de paredes e janelas e os guarda em imagens que não podem ser derrubadas. Ao mesmo tempo, também observa atento o futuro que se aproxima, sem pretender negá-lo.
*Visto na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo.
Filmes Citados:
24 City (Idem, 2008/Jia Zhang-Ke)
Em Busca da Vida ( /Jia Zhang-Ke)