
por Leonardo Amaral
Um padre se oferece a testar uma vacina para combate de uma peste na África, acaba sendo contaminado pela doença, mas é curado após receber uma doação de sangue. E após isso, tem necessidade de ingerir sangue sempre para se curar. Logo que retorna do continente africano, vai ao lugar onde nasceu e conhece uma moça pela qual vai se sentir atraído, sendo que, posteriormente a uma relação carnal, ela também fica doente.
Nessa pequena sinopse do filme já se pode perceber algumas das chaves do cinema de Park Chan-wook, quais sejam, o homem em seu caminho de ascese (Oldboy), corpo como objeto que sofre a ação, como também age, e, para tanto, se dilacera (Lady Vingança, Oldboy) e ainda a inexistência de um tempo necessariamente lógico, ele se dá e se constrói, em grande parte, de acordo com as ações que aparecem na tela, sem que, no entanto, essas façam algum tipo direto de referência na outra. Nesse sentido, por vezes os filmes de Chan-wook apresentam uma certa independência dos planos, em que a câmera ganha uma liberdade característica de um certo tipo de cinema contemporâneo que abandona a ideia rígida do ato de enquadrar para transformá-lo e aproximá-lo a um sentido por vezes cool – algo, por exemplo, que Johnnie To faz muito bem, assim como Park Chan-wook em seus momentos mais inspirados. Um cinema, em certo sentido, maneirista (naquilo que o termo pode ter de melhor ou pior).
Em Thirst (que, no Brasil, vai se chamar Beba, Este é Meu Sangue), Chan-wook radicaliza toda essa sua ideia de mise en scène. Em certos momentos, a grande impressão é a de se ver um cinema-filme em tableaux, por vezes tão isolados que acabam por se tornar um exercício de estilo, o que não é problema algum. Em seus filmes anteriores, uma presença narrativa era perceptiva, mas, em Thirst, Chan-wook parte para um cinema de impressões rasas, e o que vemos é uma grande ironia. Em certo sentido, a condução do filme vai criar essa atmosfera, e o espectador não se apega – como era objetivo – a qualquer um dos personagens, a qualquer um dos fatos, ações. O que temos: corpos em seu processo físico de destruição que, no entanto, não apresentam qualquer perspectiva de fim. Por aí o final do filme – que não será revelado aqui, mas não deixa de inferir certas coisas – vai romper a noção de destruição infinita, ao mesmo tempo em que revela um projeto que, por muitas vezes, acaba se esquecendo do todo. E isso pode ser um risco, valendo a pena (ou não) arriscar. Eu arriscaria.
*Visto no Festival de Cannes, 2009.
Filmes Citados:
Thirst (Bak-Jwi, 2009 / Park Chan-wook)
Oldboy (idem, 2002 / Park Chan-wook)
Lady Vingança (Sympathy for the Lady Vengeance, 2005 / Park Chan-wook)