Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion (2)

por João Toledo

Entrei na sala escura e observava uma tela branca. Não projetava nada, nada sabia sobre o filme, o primeiro do dia, e não havia de minha parte qualquer expectativa. E logo de cara, nas primeiras imagens, fui subtraído da sala de cinema e delicadamente levado para dentro de um impressionante universo de imagens, onde a paixão é sempre viva, sempre pulsante. É inacreditável o poder de construção de uma imagem, da articulação de profundidades no plano, de uma mise-en-scène absolutamente precisa. Mas o incrível é que tamanho rigor, ao mesmo tempo em que remete ao rigor, precisão e preciosismo de Kubrick, nunca engessa a imagem, nunca a torna inflexível; há uma doçura que reina tão soberana que ela dissolve o rigor em brisa, como a métrica de um poeta que se dissolve em dança, em melodia e ritmos que te jogam para longe dos processos de construção. Não há auto-importância nem exaltação excessiva dessa beleza esplendorosa. O filme é como o bordar delicado de sua primeiríssima imagem; artesanato magistral, a técnica mais íntima possível, o sublime que se constrói no detalhe mínimo.

Jane Campion faz aqui um dos mais impressionantemente belos filmes já feitos, um dos mais cuidadosos com o menor dos movimentos. Se há os que argumentam que o filme se perde na poesia de Keats e se rende ou se prende à palavra é porque estão, estes críticos ou espectadores, presos eles próprios a argumentações enferrujadas e clicherescas quanto ao uso da palavra no cinema. Se em Godard a palavra é cinema, em Marguerite Duras nem se fala; em Duras o cinema é a palavra, e não apenas. O cinema, afinal, é tudo, e Jane Campion não submete seu filme a artifícios narrativos, ela não se perde na poesia tampouco esquece da imagem. Nada está acima de nada, a imagem nunca depende da palavra. Elas se completam, e essa harmonia é fundamental, e deveria ser, acima de tudo, louvável. Não se pode cair na armadilha retórica de que o cinema é imagem – coisa que tem seu momento em uma argumentação política em contextos onde a palavra e a narrativa são privilegiadas em detrimento da imagem – e esquecer-se de que pode haver muita beleza e riqueza cinematográfica na palavra, seja falada, escrita ou cantada.

O mais curioso da mise-en-scène de Campion é que não é bem possível desvendar seu mistério, distinguir exatamente como é que se está a criar um ritmo de cena tão apaixonante. Talvez não seja isto, enfim, uma crítica, mas uma carta de amor. O delicado humor do filme me remete aos escritos de Bazin sobre Chaplin, quando ele evoca as duas ondas de risadas distintas para uma mesma gag. Aquilo que Bazin chamava de densidade suprema do estilo talvez possa ser dito, embora em outra chave, que não a da gag, sobre o filme de Campion. Tudo em Campion parece resultado de uma longa depuração, como se a câmera tivesse repousado ali até integrar-se ao ambiente e compreendê-lo, compreender o que podia resultar de um simples gesto, gesto refinado, limado, lubrificado, como dizia Bazin.

As ondas de risada parecem vir, num primeiro momento, em função da comicidade em si, de como a irmã mais nova, por exemplo, lida com o relacionamento da irmã com o poeta, de como ela reage, deslumbrada, aos momentos de encontro dos dois, e, em um segundo momento, o riso parece vir de um reconhecimento da delicadeza e da perfeição daquela engrenagem, de um primor tão tênue que quase se desmancha. Está-se a rir menos da ação em si e mais da presença que o filme tem, de como constrói o momento e o espaço para essa ação. Ficamos, ao final, muito pertos de sua paixão – se não apaixonados –, perdidos em sua chama, desconcertados, incapazes de separar cinema e paixão, de encontrar a construção em algo que, de tão construído, se desfaz.

Filmes Citados:
Brilho de Uma Paixão (Bright Star, 2009/Jane Campion)

 

*Visto no Festival do Rio 2009.

 

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