
por João Toledo
Hotel Atlântico é um daqueles filmes onde as limitações técnicas e os eventuais problemas de encenação nunca se tornam uma questão, tamanha a nossa satisfação em presenciar algo cuja força motriz não é nenhuma engenhosa engrenagem industrial, mas em primeiro lugar uma aparente pura vontade, apaixonada pela idéia da criação.
Acompanhamos, nos planos iniciais – de uma inegável elegância –, um jovem que chega a um hotel e se fecha num quarto suspeito. Porém, “suspeito” talvez não seja nem o hotel e nem o quarto onde o rapaz se hospeda, mas ele próprio, que arrasta consigo durante todo o filme uma série de forças estranhas, de acontecimentos bizarros, de situações terríveis, como um alvo invisível, vórtice de um furacão. O hotel e o quarto passam a ser suspeitos a partir do momento que ele ali adentra, trazendo consigo o peso de seus pensamentos, de sua vida e morte, de sua loucura, de sua apaixonada e contraditória juventude sem rumo.
Dali ele sai para, durante uma caminhada em frente ao mar, tomar uma decisão; viajar ou fugir, seguir por um caminho que seja acima de tudo verdadeiro ou entregue. Ele segue a trajetória do herói moderno, do homem cujo caminho é o destino; não se trata de fatalismo, de uma aceitação e entrega à morte e às desgraças, mas de uma aceitação de si e uma conseqüente aceitação dos resultados dessa entrega à sua verdade, à sua moral particular, aos ideais incorruptíveis de um existencialista. Mas o curioso é que, por mais narrativo, por mais envolvente, preocupado com dialogar com o espectador, o filme nunca revela de fato nenhuma resposta definitiva, nenhuma verdade; do início ao fim, uma coisa é certa, não sabemos de nada, pelo menos ao certo.
A decisão que ele faz diante do mar, se é que ali esteve, ele desfaz ou refaz ao fim, repete ou recomeça. Só temos acesso, de fato, ao inacessível; não sabemos quem são os gaúchos e nem porque querem matar o rapaz, não sabemos se ele é um mesmo um ator - nem a extensão de sua fama -, não sabemos se ele de fato é um alcoólatra, se as viagens do sacristão são reais, nem o porquê de ele ter sido chamado de seqüestrador por uma senhora, não sabemos as intenções reais da filha do médico e tampouco o que se passa com o rapaz na praia, nos momentos finais. O que sabemos é o que está ali, que é imagem e que está no momento. Mas em nenhum momento isso parece pouco. Basta que estejam ali pessoas vivendo e fazendo escolhas, descobrindo lugares, sentindo medo e tesão, raiva e cansaço, desprezo e carinho. E tudo isso vai desembocar no mar, em sua imensidão, seu infinito, seu absoluto mistério, sua totalidade sem respostas.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Hotel Atlântico (Idem, 2009/Suzana Amaral)