
por João Toledo
A experiência cinematográfica de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes pede certo cuidado e atenção nas aproximações, pois se pode incorrer em várias armadilhas no cotejo com seu processo e com o que dele resulta. Uma delas é a de crer que se trata de uma construção (ou solução), no fundo, bastante fácil, um arremedo de imagens unidas por uma narração que está ali apenas para justificar o uso dos registros em sua precariedade, em um projeto sem rumo prévio, sem destino algum. E, no entanto, falta de destino talvez seja o maior destino do filme, seu rumo; uma escolha, efetivamente. E isso faz toda a diferença.
Ali não se encontra simplismo no que se constrói enquanto narração, não se trata de uma ficção para justificar imagens. São antes as imagens que justificam a ficção, justificam o trajeto, justificam o carinho, o adentrar no universo árido dos habitantes, o rigoroso estudo de si a partir do outro. Não se busca justificar imagem alguma, tampouco fazer com que se tornem compreensíveis a partir do processo de concatenação de planos, como se coubesse a esse processo dar o sentido que a elas falta. Através da narrativa, trata-se, talvez, de partilhar as imagens sob a perspectiva de um olhar, um olhar que é de dentro e de fora simultaneamente; uma espécie de presença ausente, imagem subjetiva e objetiva, realidade e construção.
O que o filme faz é escavar a relação íntima de quem filma (capta ou rouba) imagens com o que se filma, numa constante busca de si no outro. A arqueologia faz todo o sentido do mundo, pois a intenção do projeto me parece ter sido antes descobrir que revelar, antes buscar que exibir. É um filme, portanto, bastante fiel tanto ao espaço colhido quanto a quem colhe, pois estão ali na tela todos os ruídos técnicos dessa colheita, como testemunhas de um olhar, de um processo; vemos uma imagem que aceita todas as suas condições, todas as contingências de sua marcha tortuosa. Esse caminho, talvez rudimentar, acaba por abraçar essa beleza que também é rude, que é dura, complexa, difusa, nebulosa, inclusive para quem ali está/esteve, para quem filma. O escavar não está apenas no gesto de adentrar, mas na forma como se adentra, como se vê a realidade. E essa operação de quem vê a realidade com o carinho, de quem se interessa efetivamente por descobrir e descobrir-se a cada momento, é sempre estimulante de se ver/descobrir.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Idem, 2009/Karim Aïnouz, Marcelo Gomes)