
por João Toledo
Soderbergh é um diretor de prolificidade algo esquizofrênica; se mete em projetos que vão desde o mais arrogante e pretensioso filme de arte, passando por filmes grandiloqüentes com pretensões artísticas e humanísticas, para chegar enfim aos filmes que melhor lhe cabem, os filmes de picaretagem, onde ele trabalha o gênero com completo despudor quase como quem estivesse a fazer aquilo por pura brincadeira. Mas o que não deixa de ser ao menos divertido na franquia dos 11, 12 ou 13 homens e seus segredos, adquire aqui um viés crítico da realidade, e faz, com a mesma sutileza de Traffic (ou seja, nenhuma), uma insistente reafirmação de sua posição diante da realidade; ele a julga e a ridiculariza, usando a seu “favor” o humor, cuja lógica nos obriga a compactuar, no momento do filme, com sua visão de mundo, rindo e ridicularizando aquilo que ele aponta com escárnio.
Trata-se, ao final, de uma espécie de Forest Gump ao avesso, onde o patético americano médio não ganha o elogio e a grandiloqüência de uma música redentora, mas uma insistente trilha ao estilo Big Band, bem anos 50, onde a inocência e pureza a que remetem aquelas melodias tornam-se um comentário crítico que ridiculariza o protagonista e todo o seu entorno, como se buscasse revelar a verdade por trás da superfície. Essa insistência em ridicularizar, em expor verdades, na verdade apenas faz com que Soderbergh se atenha sempre à superfície, sempre se escore no valor de face de sua imagem, revelando sua incapacidade de deixar qualquer questão implícita, irresoluta.
O problema é que, mesmo no humor, mesmo dentro de uma proposta onde o ridículo está a serviço do gênero, existe um excesso constante na reafirmação de todas as posições críticas que me desloca do filme enquanto narrativa para um discurso além-filme. Isso é chato, pois perde-se aí a oportunidade de se divertir com algo que, em determinado momento, se torna pedante ao revelar suas verdadeiras questões. E Soderbergh, por mais talento para a criação visual e rítmica que tenha, parece realmente crer na deficiência mental de seu público e acreditar que precisa nos guiar pela mão (ou coleira) por caminhos que há muito sabemos trilhar sozinhos.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
O Desinformante! (The Informant!, 2009/Steven Soderbergh)
Traffic (Idem, 2000/Steven Soderbergh)
Forest Gump (Idem, 1994/Robert Zemeckis)