Tulpan, de Sergey Dvortsevoy

por João Toledo

Mais uma vez entrei na sessão sem nada saber ou esperar de um filme, baseado em vagas recomendações de alguns amigos. E em um filme onde o momento é tão importante, tão privilegiado pelo trabalho de câmera, o absoluto desconhecimento do tema e do universo abordado fizeram-me muito bem, pois o poder da imagem não se chocava contra nenhum conceito prévio. E ali fui descobrindo aquele mundo, um plano após o outro, sem saber ao certo como lidar com aquilo, de onde partia aquele projeto, quem o fizera, quem eram aquelas pessoas na imagem, resistindo em vulto sob a poeira e vento forte. Sobretudo, não sabia como era possível esse filme, um filme de muito mistério, um filme de ficção que não parece ter vocação nenhuma para a ilusão, para a construção de um mundo novo, ainda que construa o tempo inteiro, e com grande talento. Mas sua vocação parece estar mais na observação que na construção, em uma feitura que depende plenamente da realidade, da credibilidade de um entorno que condiciona o filme à natureza, à condição imprevisível das coisas. Mas é impossível saber em que medida esses limites se dão.

O filme é feito de diversos planos-seqüência, que constroem o ambiente sem nenhuma busca totalizante – o extra-campo está sempre presente. Aliás, quase tudo no filme é extra-campo já que no campo mesmo resta muito pouco para além da estepe deserta. E essa estepe se transforma ao longo de Tulpan numa espécie de palco para os acontecimentos fugazes, para a força da imagem que irrompe no nada e toda espaço no plano, ocupando-o seja de poeira, de um tornado, de camelos ou ovelhas, seja do invisível canto da garota – que, insistente, reclama autonomia no espaço do plano. Parece coerente dizer que trata-se de um filme sobre forças invisíveis, sobre os pensamentos e motivações dos personagens, que permanecem ocultos, sobre a força da natureza, que vem e vai sem razão ou destino certo, sobre os olhares que não se traduzem em palavras, sobre os sonhos que seguem fortes, ainda que atropelados por cortinas de areia.

 A garota que dá título ao filme permanece oculta, permanece sonho intangível, impalpável, para além do horizonte vazio. Talvez, um filme sobre esperanças, onde a força não está nessa significação boba, mas exatamente no contrário, na imanência de um certo poder de verdade no choque entre o filme e a natureza que o cerca. Nesse sentido, às vezes parece um retorno a Flaherty e seu Nanook do Norte, à (re)construção da própria realidade do esquimó, onde a duração do plano de ação é fundamental, pois é ali que habita a potência de verdade que nos prende à imagem, por mais encenada que seja. E aí não cabe distinguir aqui o documentário da ficção para encontrar os limites de cada um, e postular valor a rótulos pouco úteis. Cabe, no entanto, reafirmar a importância da não-construção da cena na fragmentação do olhar, da não-montagem, que permite que o próprio acontecimento de fato exista e possa encontrar seu impacto nessa existência plena, em detrimento de uma construção. Tenho a impressão de que o velho Bazin teria gostado desse filme.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
Tulpan (Idem, 2008/Sergey Dvortsevoy)
Nanook do Norte (Nanook of the North, 1922/Robert Flaherty)

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