
por João Toledo
O grande, prolífico e incessante realizador português Manoel de Oliveira retorna com esse pequeno filme, ou uma pequena jóia de brilho desmedido, em curiosa adaptação de um conto de Eça de Queiroz. Curiosa porque talvez a melhor palavra para descrever a relação de criação de imagens de Oliveira seja “pitoresco”. Existe uma graciosidade criativa e um cuidado com a mise-en-scène que forjam um constante estado de graça, onde todo o cinema parece ser constantemente renovado, e parece que estamos ver tudo pela primeira vez.
Esse pitoresco transforma a Lisboa do filme (seja ela de hoje ou de que tempo for) em um lugar inexistente, de tempo algum, um lugar que só o cinema e o cinema de Oliveira conseguem revelar na imagem. Há algo que transborda, um quê de excesso, talvez, nas cores, na arquitetura do espaço cênico, na frontalidade com que observa-se a cena, nas atuações algo teatralizadas, nos movimentos marcados, que de certa forma deslocam o filme da realidade – para um âmbito crítico, talvez. Quando o casal se beija pela primeira vez, por exemplo, e a garota levanta uma das pernas, esse gesto traz uma deliciosa dubiedade; há ali ao mesmo tempo um certo fascínio e a exploração do ridículo do ato de repetição de valores e gestos enquanto expressão, a adequação da paixão ao seu contexto.
Do conto de Eça, resta a narrativa, sua força de conto moral, onde o amor é suplantado por uma espécie de código de honra, mas na imagem nascem os personagens geniais que mereciam, cada um deles, seu próprio filme, e neles o cuidado com o mínimo, com cada espaço no quadro, se torna bastante evidente. Nasce também a força da expressão e do movimento no espaço, do que imagens e sons dizem sem palavras: num jogo de cartas, num trem que se afasta, numa cortina que ao mesmo tempo esconde e revela, no som de uma harpa. Renascem os diálogos, recriados no ato da enunciação e com uma jocosidade (crítica) bastante graciosa, elegante. Do realismo de Eça talvez não reste nada, a não ser a própria realidade por trás do jogo cênico, a realidade ao mesmo tempo atraente e patética, absolutamente pitoresca e irresistível de olhar. O cinema português, dos realizadores mais experientes aos mais novos, é hoje um dos mais estimulantes do mundo. Que Oliveira continue, pois, contribuindo para isso.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
Singularidades de Uma Raparida Loira (Idem, 2009/Manoel de Oliveira)