35 Doses de Rum, de Claire Denis

por João Toledo

Um filme enclausurado na lógica de mundo de seus personagens, circunscrito ao dia-a-dia e dedicado a ele com a paciência de quem realmente se entrega a um universo de signos próprios. E por “próprios” não quero dizer que sejam limitadores ou fechados em si mesmos. Trata-se de fato de um mundo que observamos de fora, que a princípio nos parece distante, mas que é reconhecível no que existe de mais essencial; seu cerne é, sem dúvida, o ser humano e o que existe nele de específico, a humanidade, talvez. E isso independe do contexto.

É curioso que seja uma adaptação do filme Pai e Filha, de Ozu, pois por outros meios ele nos faz chegar a uma mesma relação com os personagens, de um carinho distante, de um apego pelo gesto mínimo e pelas decisões incompreendidas como pontes. Está no incompreendido nossa compreensão, nossa relação com aquele mundo está no que nunca é dito ou explicado; são as atitudes dos personagens que nos aproximam. Se Ozu partia de uma sociedade de rigor e honra absolutamente repressores para observar o cotidiano mecanizado e esvaziado de seus personagens, Denis parte de uma repressão outra, a repressão a partir das condições sociais, que acabam levando ao esgotamento através do cansaço e da falta de perspectiva de mudança.

Claire Denis constrói seu filme não a partir de uma estética que emula o cinema de Ozu, com suas câmeras baixas e pouca ação, mas dentro de um certo viés realista. A força, no entanto, desse realismo – que por vezes observa quieta do fundo da casa e por vezes acompanha os personagens em seus deslocamentos – está na forma como a narrativa encontra seu espaço no campo das imagens; não há nenhuma busca ali por abraçar a verdade daquele universo, não há muitos contra-planos e os ambientes não são inteiramente revelados. Nos interessa a parte, a fração, e assim seguimos, com os personagens, por caminhos surpreendentes e sem planejamentos, explicações, metáforas, justificativas de qualquer ordem, sejam elas narrativas ou morais. É um filme que obedece a lógica dos personagens e não o contrário, não os impõe nenhuma ação, tampouco a necessidade de tornar compreensíveis suas decisões. Trata-se, talvez, de um dos poucos cinemas realistas contemporâneos que proponham algo de interesse, um dos raros exemplares de um cinema cuja beleza está em permitir à imagem a autonomia de sua forma mais puramente objetiva, para que não seja a forma um empecilho ou um filtro para o gesto humano, no que ele tem de mais próprio e belo – por mais triste que seja.

*Visto no Festival do Rio 2009.

Filmes Citados:
35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008/Claire Denis)

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