
por João Toledo
Apesar de investir em outro tipo de narração em seu novo filme, distante do fulgor dos corpos e de todo o peso dramático produzido por esse enlace em A Última Amante, Breillat ergue seu cinema em um ambiente comum. Antes de estarem os personagens, parece estar o espaço como força motivadora, como assombração criativa revelando-se a cada paisagem como detentor de mitologias e histórias invisíveis. Breillat retorna aos campos, castelos e casebres de um tempo distante para recriar a história de Barba Azul e sua jovem esposa. Sua aproximação desse universo, apesar de dotada de um ritmo ou fôlego muito mais humano que onírico, nos faz remeter, através dos planos em sua maioria fixos, às imagens da infância, advindas de livros de fábulas ou contos de fadas, onde reis desfilavam com vestes ostentosas e cavalgavam em enormes cavalos brancos por entre árvores e muralhas.
Diante de nós, portanto, um ambiente fabular recriado em exercício de encontrar um conflito verdadeiramente humano nas decisões de seus personagens, daqueles seres presos à fábula. Simultaneamente, em narrativa paralela, acompanhamos duas jovens irmãs enquanto lêem o conto do Barba Azul em um velho porão, e se descobrem nas decisões das personagens e desvendam os conflitos da entrega ao homem. A primeira narrativa, um conto moral, e a segunda, um conto fortuito; ambas dotadas de uma mesma abordagem estética (que parece remeter a Rohmer), girando em torno de questões semelhantes (a disputa entre irmãs, a perda da inocência, o medo), mas cujo desenlace explicita a distância entre a história recontada e a criada.
Se em Barba Azul a decisão da garota que não resiste à curiosidade a condena ou condena o rei a quem ela realmente amava, na história das duas irmãs que lêem o conto, não há ação que carregue significado a ponto de explicar o resultado de seu conflito. Aquilo simplesmente acontece, sem razão, sem destino, sem moral. Nesse final, conto de fadas e conto de terror se confundem, como se confunde em vida o onírico e o real, o terrível e o fantástico, a beleza no excêntrico e a beleza no singelo. Catherine Breillat faz um belo filme, o mais adulto dos filmes infantis, uma possibilidade de reencontro com as imagens que povoam nosso inconsciente coletivo, que ajudaram a construir nossa relação moral com o mundo, e nas quais podemos encontrar novos sentidos a partir desse choque.
*Visto no Festival do Rio 2009.
Filmes Citados:
Barba Azul (Barbe Bleue, 2009/Catherine Breillat)
A Última Amante (Une Vieille Maîtrasse, 2007/Catherine Breillat)