Pan Cinema Permanente, de Carlos Nader

por Leonardo Amaral

 

O filme de Carlos Nader é um ‘filme de amigos’ em tom  humanista, respeitoso e saudoso, sem,  no entanto, cair em uma espécie de retrato piegas. Em certo ponto, chega a lembrar Estafeta – de André Sampaio sobre o cineasta Luiz Paulino dos Santos– em sua celebração a uma persona e principalmente à vida. Pan-cinema permanente – como o próprio nome diz, ou seja, uma representação em permanência - explora forma e performance: a primeira, poética, com os versos e letras de Waly Salomão, enquanto a segunda, a própria representação do poeta e ator baiano.

 

Nader usa imagens de arquivo, entrevistas em voice over e uma câmera que serve de palco para Waly  construir um filme-espetáculo em que o corpo de Salomão é o próprio espaço-tempo diégetico, ele preenche, realiza e  compõe a imagem; são fragmentos de uma encenação natural. O próprio Waly reafirma em todo o filme que a graça do mundo está na mentira, nas ilusões e que a poesia é a principal forma de se mentir e de entender o mundo; ela deve operar o tempo todo.

 

Para um personagem excêntrico, a construção da imagem deve fugir a regras, se soltar de rédeas, convenções, pré-determinações, como no momento em que uma mulher dança uma música síria e, sob uma orientação de Waly, a câmera se deixa circundar em meio aos espectadores (incluindo o nosso personagem) que observam os movimentos do corpo, que, em contraluz, ganha uma exuberância do fora de controle (arquitetado por Nader e Waly). Em outros momentos, a abertura do diafragma e a alternância do foco funcionarão como um olhar que busca enxergar sempre o novo, que não se prende a nada, assim como a poesia de Waly, inserida em letras que se fundem a própria imagem.

 

“A justiça falha, estudei direito e sei, a justiça falha”, retruca Waly Salomão em momento retórico. E para quem celebra a vida e a encena a todo instante, a morte é também algo que não se pode controlar. Os depoimentos retratam o fim, o corpo (de Waly) que antes preenchia, dizia, remetia, agora não mais está. Contemplamos a ausência, inclusive das palavras. O filme possui sim um saudosismo, mas não um tipo barato. Existe, ao contrário, uma tentativa de se buscar novamente a presença, que vem em versos do próprio poeta: ao final, deitado na areia, de braços abertos, observa o que está acima, o que não pode ser medido, o lugar onde não existem verdades e sim o novo, algo como um logradouro de ilusões.

 

*Visto no Indie 2008. 

 

Filmes Citados:

Pan Cinema Permanente (idem, 2008/Carlos Nader)

Estafeta – Luiz Paulino dos Santos (idem, 2008/André Sampaio)

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