
por Gabriel Martins
Já iniciado em um travelling, Sábado à Noite tratará de processos visuais de transição. Como o próprio título diz, o filme registra uma madrugada de sábado para domingo, partindo de uma rodoviária para diversos pontos da cidade. De certo, há uma sensação próxima à de chegar a uma cidade estranha durante a noite, com aquela curta incerteza de um rumo certo ou seguro. Esta própria indefinição de uma linearidade espacial clara representa o caráter espontâneo que o filme opta por seguir, completando-se, devidamente, com alguns paradoxos e articulações de montagem (explicações mais à frente). Se há um rumo, é o do próprio tempo da noite, no caminho para o seu fim ou pelo que a cidade guiar.
O preto e branco, que muitas vezes atribui um caráter nostálgico, por vezes melancólico, aqui respeita um sentido imagético de tratar seu plano com menos dispersão por elementos particulares, como se objetivasse não só a observação da cidade como geografia, arquitetura e pessoas, mas como uma composição voltada para a textura e morbidez de um silêncio composto por luzes.
É essencial a não-artificialidade do registro como uma própria afirmação da documentação. É em campo o cineasta que se vê ao observar e escutar sua cidade, como em um longo plano que mira o técnico de som experimentando o barulho e reverberação do cenário. Não há “deformação” durante todo o processo pela mesma necessidade de sentir a vida do concreto, da construção urbana, do próprio espaço.
Nesta mesma vontade de buscar o autêntico, o que “está lá”, há uma espécie de paradoxo (previamente citado) criado ao Ivo Lopes Araújo artificializar de certa forma a sua câmera, principalmente ao empregar em alguns momentos (poucos) a montagem analítica como uma opção a princípio estranha de recorte momentâneo (plano das senhoras atravessando a rua). Não sobressai a ponto de denegrir o foco ou gênese do projeto, serve até como uma mesma proposta de desconstrução, quase ironia, com o espaço documental delimitado.
Claramente em tom com a vida de seu cenário, Sábado à Noite lembra, no cinema, de um universo tocável. Ao mesmo tempo, tem a plena ciência de que este espaço cabe em um enquadramento e que, a partir daí, se transfigura em um fragmento do real, toca a cidade com a lente. Mesmo na proximidade sensorial com o pleno, a vida (planos abertos e longos), vê-se a constatação do registro como um claro artifício técnico do olhar, da necessidade de perceber. É ver, no fim das contas, o perecer de um vazio bonito, dali para o passado, fixo em imagem, em filme.
*Visto na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filme Citado:
Sábado à Noite (idem, 2007/ Ivo Lopes Araújo)