Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato

por Ursula Rösele

 

Mais uma vez, o festival de Tiradentes apresenta um documentário que traz reflexões acerca de sua conjuntura, seja ela estética ou conceitual. “Acidente” busca a poesia visual a partir da experimentação própria da produtora Teia de Belo Horizonte, em conjunto com a poesia nascida através da junção dos nomes das 20 cidades de até seis mil habitantes de Minas Gerais pelas quais os diretores Cao Guimarães e Pablo Lobato viajaram.

Apesar da cópia em vídeo projetada em condições distantes das ideais, que acabaram deixando dúvidas quanto ao resultado estético de cor e textura objetivada por eles – elementos essenciais em seus filmes – “Acidente” passeia no ritmo de sua poesia e na capacidade acidental da câmera de captar as minúcias existentes no microcosmo de cada um daqueles lugares. Existe uma busca pela beleza percebida pela câmera discreta que passeia quase que solitária, procurando no imprevisto a razão de seu caminhar.

O tom amarelado, as paredes descobertas de tinta, o silêncio, a rima do nome com aquilo que evoca. Abre Campo e suas ruas silenciosas, em enquadramentos que sugerem a continuidade de um caminho realmente aberto, não evidenciado pela câmera, através da sugestão. Planura e sua linha reta, plana, numa seqüência curta que beira a obviedade do nome que carrega. Passos e o engraxate paranóico, que clama pelo sossego Divino enquanto engraxa os sapatos que passeariam ali. Caldas e a água que transborda no banho, no lirismo de uma bola vermelha que parece ter surgido em esforço pueril de ver-se descoberta através daqueles olhos imparciais.

Nesse bailado suave, “Acidente” constrói sua poesia aos poucos, à medida que o acaso se apresenta, na consecução de uma poesia que evoca diversas possibilidades de apreensão, de organização, de significado. Através de seus pequenos fragmentos, a possibilidade de descoberta de sentido, num ensaio sensorial e encantador, que percorre cidades também acidentadas, imperfeitas, na constatação doce de que a beleza pode emergir desses sopros de ‘realidade’ que se apresentam através do olhar de cada um, quando esse olhar se dá num ambiente extra-câmera, ainda que em sua presença.

*Visto na 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Filme Citado:

Acidente (idem, 2006/Cao Guimarães e Pablo Lobato)

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