A Nova Vida, de Philippe Grandrieux

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por Ursula Rösele

Depois de certo tempo escrevendo, assistindo e lendo sobre filmes, às vezes fica o receio da apreensão de um olhar com certo “formato” preparado para determinadas críticas. Surgem termos, palavras, frases inteiras ao longo de uma projeção como se houvesse uma obrigação de escrever sobre o filme visto, de encontrar argumentos lógicos e complexos para imagens que muitas vezes não dizem nada para a maioria das pessoas.  E há também essa questão da obra de arte que, uma vez finalizada por seu criador, deixa de pertencer a ele e se torna domínio público. Qualquer um pode falar de um filme, pintura, música, livro, etc. E em um exercício crítico mais superficial, há às vezes uma obsessão por atingir as tais ‘ intenções do diretor’, do filme ou o que seja, como se fossem verdades absolutas ou se houvessem respostas “certas” para os críticos encontrarem.

Fato é que me chamou a atenção neste Indie a constância de filmes (me refiro às retrospectivas) cujo ‘gostar’ e ‘não gostar’ ficam por vezes em último plano. Isso em se tratando mais de Brillante Mendoza e Philippe Grandrieux. Mendoza tem esse cinema que pulsa uma vontade absurda de retratar uma realidade de fato como ela parece ser, para aqueles que a vivem e não para aqueles que falam a respeito; sem medo de encarar a sujeira e a podridão do mundo e das pessoas de frente. Admito que de Grandrieux somente pude assistir A Nova Vida, mas, sem a preocupação de fazer comentários mais amplos que reúnam sensações de todos seus filmes, creio ser este um filme que não há mesmo como dizer “eu gostei”, mas, sinceramente, isso não interessa. Uma palavra uníssona do filme é “transtorno”. Da câmera, da trilha, dos personagens, do diretor e por aí podemos seguir numa lista infindável.

Fato é que desse emaranhado angustiante de imagens, algumas ficaram ressonando na minha cabeça, por seus simbolismos, sua cadência doentia, seu ar esquizofrênico de retrato de um universo talvez tão subversivo quanto o de Mendoza e o mais impressionante: um silêncio ensurdecedor dos personagens que, ou não falam nada, ou balbuciam frases em uma língua que parece russo ou coisa nenhuma, ou um francês difícil de sair ou – o único que fala de forma compreensível – um americano falando em inglês. A língua ali não é determinante de nada, não serve de fato para nada, apenas para externar desejos e/ou imposições como o sexo, a posse de uma mulher e o consumo desenfreado de drogas.

Partamos do princípio que aquele é um ambiente de traficantes e prostituição – algo que o filme não se preocupa minimamente em explicar. Estamos em um universo que inicialmente parece um filme de terror do Fellini, pedindo a gentileza de vocês tentarem visualizar o comentário descabido. A câmera urgente, impaciente, sacudindo sem parar só encontra foco muito próxima do rosto de um grupo de pessoas estranhas que, em silêncio, olham para um lugar que não sabemos qual é com uma expressão extremamente angustiante e o prenúncio de lágrimas. Ao mesmo tempo, vemos alguns personagens recorrentes do restante do filme num campo vasto com cachorros muito raivosos. E vamos para um lugar que aparece mais vezes, parecido com uma boate, um “inferninho” (termo que para este filme parece pudico por demais), um bordel com ares de fim do túnel – sem possibilidade alguma de redenção.

Nos primeiros 20 minutos de filme o silêncio é total. Só a trilha incômoda faz barulho. Uma escolha que passou uma impressão quase insuportável de sufoco. A câmera, quando distante, está sempre na mão tremendo de um lado para o outro e quando se aproxima encontra foco, mas focaliza um algo impossível de determinação clara. Como se essa retratação refletisse um mundo contemporâneo em que criamos novos campos de concentração, em que os corpos estão à venda e disponíveis inclusive para a tortura. A beleza é algo improvável, mesmo naquela que parece ser uma das protagonistas, uma moça muito bonita, mas dilacerada de todas as formas no filme. Seus cabelos são cortados com um facão, sua expressão é sempre de medo, seu corpo se distribui pelos corredores sem a mínima parcimônia.

Como se Grandrieux tivesse resolvido colocar na tela um pesadelo insuportável, daqueles que acordamos suando, mas neste caso ele não nos permite acordar. Aquelas pessoas parecem suspensas, por algo muito além do entorpecente, algo da alma, que transcende somente através de seus olhares, a única coisa que a câmera consegue nos mostrar com clareza. Como Marcelo Miranda (aqui) falou a respeito do primeiro filme do diretor, A Nova Vida também é um emaranhado de fragmentos. Fragmentos que parecem sempre retornar a um determinado lugar, uma espécie de cárcere o qual nem o corte final do filme pode libertar. As cores, a ausência delas e tudo aquilo que se permite gritar não é humano: a trilha, o som da boate, os cães.

Não há linguagem possível, não há escapatória. A Nova Vida é o inferno encarnado, a constatação da própria morte. Grandrieux registrou – ou ao menos tentou fazê-lo – a perda da crença, da compreensão, da esperança e da humanidade. Os animais se fundem com as pessoas, como em uma cena em que um dos personagens foge de um dos cães e outros três aparecem e se misturam a ele de forma que não conseguimos mais diferenciar o que é corpo humano e o que é cachorro, ali. A virulência dos homens, por conter o elemento racional, é ainda mais angustiante, pois não há desculpa plausível. Há, sim, um estado maior neste filme, um estado de suspensão da razão e não propriamente do mundo, que está e não está lá.

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Em um efeito que deixa a imagem semelhante à de um raio-x, Grandrieux filma aquilo que parece ser o resultado dessa fusão homem-animal irracional. Personagens caminham de quatro, já num território de tal forma desumano que não permite nem que eles fiquem de pé. Tudo que vemos é caótico, as sombras parecem esconder o sangue, o contato humano é por vias antropofágicas. Somos, portanto, mais animais que os próprios cães, mais virulentos que a natureza, desprezíveis, irrecuperáveis. Resta o grito, apenas. A mesma câmera descontrolada, como que tomada daquela energia, focaliza o pomo-de-adão (popular “gogó”) de um dos personagens de uma maneira de tal forma transtornada que, enquanto ele grita, a impressão que se tem é de que há um demônio em sua garganta.

E talvez haja de fato. A Nova Vida é um filme estranhíssimo, incômodo e revelador de um lugar onde todos nós temos um demônio interno prestes a sair.

*Visto no Indie 2009.

Filme Citado:
A Nova Vida (La Vie Nouvelle, 2002/Philippe Grandrieux)

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