Escória, de Heinrich Dahms

por Leo Cunha

 

 

O holandês Escória, do diretor Heinrich Dahms, começa como um típico filme de tese. De um lado temos Ed, um jovem branco, que largou a escola, não quer saber de trabalho, só de maconha, cocaína e álcool, que circula por bares e boates curtindo sexo, drogas, música tecno e tiradas racistas contra os imigrantes. Do outro lado temos Hassan, um jovem imigrante muçulmano, sério, calado, estudioso, que acabou de ser aceito numa faculdade.

 

O holandês hedonista irresponsável versus o imigrante estudioso, respeitoso e responsável. Ed vem de uma família desestruturada, com uma mãe bêbada que mal sabe as horas do dia. Hassan vive em uma família unida, mas extremamente tradicional, com um patriarca que decide cada passo dos filhos. Depois de cinco minutos de filme, já temos a certeza de que mais cedo ou mais tarde os caminhos dos dois irão se cruzar e que daquele encontro sairá alguma desgraça. Tudo leva a esta conclusão.

 

Para disfarçar tamanha dicotomia, Dahms (que também escreveu o roteiro), nos mostra que Ed não é 100% caso perdido, afinal nutre um certo carinho pela irmã que se prepara para um aborto (mas nem tanto

carinho assim, pois cai no sono ao ouvir as lamúrias da irmã). Também Hassan não é 100% exemplar: falta-lhe coragem para peitar o pai, que não aceita sua entrada na faculdade e exige que o rapaz se contente em sucedê-lo na gerência da quitanda. Ah, e temos também a namorada loura de Hassan, como para sublinhar que nem todos os holandeses são escória como Ed.

 

Mas, de repente, algo de inesperado acontece no filme. Os caminhos dos dois protagonistas realmente se cruzam, numa lanchonete e nada acontece, apenas olhares tortos. Cada um vai pro seu canto e continua

sua vida de zoação (no caso de Ed) ou de rotina família-namorada- trabalho (no caso de Hassan).

 

Neste momento, o filme ganha uma dimensão inesperada: em vez de uma tese sobre o confronto bem x mal, estamos diante de um filme sobre os não-confrontos? Afinal, Ed não consegue enfrentar seus vícios, Hassan não dá conta de enfrentar as tradições, e o próprio filme se recusa a apresentar o confronto entre estes dois mundos. Se terminasse por ali, Escória seria um filme bem mais forte, ambíguo, provocador.

 

Mas eis que, nos últimos cinco minutos, o filme demonstrativo que se anunciara no início acaba se manifestando. Os caminhos dos dois jovens se cruzam novamente e, desta vez, a tragédia desaba sem piedade. Dahms não resistiu ao seu próprio “como queríamos demonstrar”.

 

O diretor Dahms, que nasceu na África do Sul e vive há quase duas décadas na Holanda, certamente estava convencido da relevância de sua tese, numa sociedade assombrada pela desigualdade, pelo preconceito e

pela violência gratuita. E demonstra talento em criar climas e ritmos distintos para contar os dois lados da história (forte presença da câmera na mão e de uma edição ágil, nas cenas de Ed; menos movimentos e menos pressa nas cenas de Hassan). Mas nada disso consegue disfarçar que o filme é pouco mais que um panfleto, desde os cinco primeiros minutos, ou melhor, desde o título.

 

Filme Citado:

Escória (Schoft, 2009/Heinrich Dahms)

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