

por Ursula Rösele
O tradicional uso de câmera na mão de Kawase aparece em Shara como elemento prenunciador de uma tragédia. Novamente iniciamos um passeio geral pelo ambiente, num plano sequência que vem do telhado da casa, perpassa alguns lugares, passa por um vidro de onde vemos dois garotos refletidos e os encontra. Um deles levanta, começa a correr e daí a câmera os segue, como um terceiro personagem, um convidado ativo e interessado nas pessoas a serem retratadas. Os corredores antes preenchidos pelas árvores nos filmes anteriores de Kawase agora são entremeados por casas e uma rua asfaltada. Não há a natureza como fornecedor de equilíbrio, somente a rotina de um lugar repleto de vizinhos, bicicletas e reuniões da comunidade.
O irmão gêmeo de Shun desaparece e damos mais um salto no tempo para sua adolescência, agora um rapaz quieto, um rapaz metade, com o olhar sempre preenchido pela falta do irmão. Na ausência da natureza, o que o impulsiona é a arte, mais propriamente a pintura. A mãe de Shun está grávida (personagem interpretada pela própria Kawase) e o lugar segue tensionado pela mudança por vir. Os closes de Kawase parecem invadir os pensamentos de seus personagens. Vemos Shun quase que por inteiro, com os olhos perdidos num silêncio que claramente reflete seu receio pelo esquecimento do irmão. Não há câmeras nesta família, logo, Shun pinta um quadro do irmão quase que em tamanho real, como que evocando-o de volta.
Os traços da adolescência também são tratados com muita sutileza por Kawase. Shun e sua amiga Yu vivem as iminências de um romance, da constatação de uma maturidade que chegou. O pai planeja um festival de dança e a câmera segue pelos ambientes, sempre buscando os personagens, sempre caminhando junto a eles, o tempo todo, com toda atenção possível. É impressionante como Kawase conseguiu levar as raízes de seus documentários iniciais para as tramas e narrativas de seus filmes de ficção. Há os elementos fortemente autobiográficos, a ausência de um parente, a morte, a indignação. Mas o mais incrível é que ela não se furta de colocar em cada plano as marcas de sua maturidade como cineasta, seus rastros autorais.
Aproxima-se o parto, o renascimento da família, a descoberta do corpo (ao que parece, o filme não esclarece) do irmão desaparecido e chega enfim o festival. A rua toda tomada e um grupo de jovens vestidos de amarelo (entre eles, Yu comandando a dança) convoca os observadores a uma dança típica, que relembra rituais de tribo, uma perfeita dança da chuva. E ela vem, plena, forte e convidando à catarse. Uma das cenas mais belas de Kawase vistas até então, sua câmera dança com os personagens, invade seus rostos e possibilita um olhar além da melancolia, um olhar para a vida.
Segue-se o parto da nova criança, numa sequência linda, com todos em volta da mãe, aguardando a chegada do bebê que iria provavelmente mudar os rumos daquelas vidas. A mãe olha o horizonte após o parto, a paz parece retomar o lugar. Saímos pois, em direção à rua, ao lugar onde tudo começou. Ouvimos as vozes dos garotos, num déja vu que os deixa seguir enquanto a câmera sobe, calmamente, as casas, os telhados, a cidade, pronta para deixá-los seguir adiante, sinalizando uma proximidade tal do cinema com a vida, que permite a continuação, ainda que tenhamos saído da sala de projeção.
*Visto no Indie 2009.
**Entrevista com Naomi Kawase disponível no you tube: aqui.
***Entrevista de Felipe Bragança com Kawase: aqui.
Filmes Citados:
Shara (Sharasojyo, 2003/Naomi Kawase)