
por Ursula Rösele
Constantemente os filmes de Kawase retratam sua cidade natal, Nara. O espaço e a natureza sempre como elementos fortes, numa abertura que geralmente nos apresenta o lugar para depois ir de encontro àqueles que o habitam. Suzaku inicia num belo plano geral da montanha verde, que circunda todo o vilarejo ao qual o filme se refere, Nishiyosino-mura, onde mora uma família composta por pai, mãe, filha, avó e sobrinho. Neste filme há um salto de 15 anos entre um planejamento de construção de um túnel para possibilitar a passagem de um trem pela vila e o fracasso desta tentativa, que deixa o pai da família, Kozo Tahara, em difícil situação financeira.
A perda e o abandono novamente estão como foco central das relações, sempre pautadas por uma solidão aparentemente irreversível. A cultura japonesa é sempre forte e pontuada de forma crítica e consciente, uma vez que através da sutileza dos planos e proximidade dos rostos dos personagens, Kawase sempre encontra um pouco de angústia pelo excesso de recato e a força da tradição que os impede de agirem de forma diferente.
Sua maneira de enquadrar traz Yasujiro Ozu à lembrança. A câmera baixa, adentra os ambientes sempre empreitando as paredes como se em busca de algo e, quando encontra, enquadra seus personagens por inteiro, principalmente quando sentados à tradicional mesa japonesa, como é comum na maioria dos filmes de Ozu. Há também uma secura nessas relações, como já dito, muito pontuada pelo recato dos japoneses, mas também narrada de uma forma que os silêncios geralmente não são preenchidos, mas angustiantes, pacientes ao extremo, como talvez, em alguns aspectos do cinema dos irmãos Dardenne.
Em Busca da Vida - Jia Zhang-ke
Para finalizar a chuva de referências que vêm à memória (e que Kawase geralmente dispensa comentar em suas entrevistas), há um plano específico de Suzaku que parece ter inspirado o chinês Jia Zhang-ke em seu belíssimo Em Busca da Vida. Em Suzaku, a personagem da mãe observa o horizonte todo tomado pelas montanhas e em Em Busca da Vida, os dois personagens centrais se posicionam defronte um buraco de uma parede em ruínas, defronte à invasão urbana. Dois focos diferentes, porém, uma proximidade curiosa entre as angústias da vida.
Suzaku - Naomi Kawase
A natureza para Kawase é o elemento primordial, o equilíbrio maior entre o homem e os espaços que habita. A diretora constantemente enquadra seus personagens entre as plantações e/ou árvores, num tipo de enquadramento que sempre enfatiza o ir de um lugar ao outro. Seus personagens sempre parecem em uma espécie de travessia, seja da vida para a morte (Cartas de uma Cerejeira Amarela em Flor), da presença para a ausência (Shara), do urbano para a natureza (Nanayo), ou, como em Suzaku, da vila para a cidade, da casa para o hospital. Seus olhares geralmente observam a imensidão da vida, seus recatos são todos transpostos nesse olhar que geralmente busca o lado de fora, a janela, a montanha.
E se existe elemento mais renovador e catártico, é certamente a chuva. Presente na maioria de seus filmes, parece sempre cair na hora certa, quando seus personagens estão à beira de um desespero que não sabem como externar. Em Suzaku isso acontece em um travelling frontal quando a jovem viúva caminha pela estrada que leva o vilarejo à cidade e seu sobrinho a chama, indo atrás dela. A câmera vai, paciente, o rapaz a chama uma, duas, três, quatro vezes. Até que cai a chuva e a mulher pára. Após a palavra “chovendo” dita pelo jovem, a câmera se afasta, certa de que os sentimentos aflorados ali agora encontrarão lugar para desaguarem.
Suzaku contém elementos metafóricos, nos quais os personagens, fundidos com o ambiente, estão a todo o tempo nesse limiar, entre a paz e a dor, a presença e a ausência. Se a natureza é o elemento, a família certamente é o centro de seus filmes. Em Suzaku o sobrinho Eisuke mora com os tios e a avó, pois a mãe o abandonou, assim como a mãe de Kawase. Em Sol Poente a avó de Kawase a filma com uma sombrinha branca, caminhando de costas para a câmera. Esta sombrinha reaparece em Suzaku, quando Eisuke caminha pela floresta e vê a tia de costas, caminhando como Kawase havia feito em sua adolescência. Essa passagem retorna como metáfora de um futuro incerto. Ainda na esperança da construção do túnel, Kozo Tahara caminha dentro da construção com a filha e o sobrinho em direção à luz. Ali, o desconhecimento do que os esperava e mais à frente (depois dos 15 anos), o raccord do túnel para o corredor da delegacia de polícia, que traria a notícia da morte de Tahara.
Suzaku é um filme de fusões. Fusão da adolescência de Kawase para o filme, das representações de seus documentários para a ficção e de sua aparição, desta vez na figura do pai, Tahara. Antes de morrer, Tahara saíra pelo vilarejo registrando os moradores com sua câmera 8mm, assim como nos primórdios do cinema de Kawase. O personagem morre, mas deixa o registro, nesse cinema que parece concentrar-se no limiar (se é que ele existe) entre o real e a ficção, o cinema e a vida.
*Visto no Indie 2009.
Filmes Citados:
Suzaku (Moe No Suzaku, 1997/Naomi Kawase)
Sol Poente (Hi Wa Katabuki, 1996/Naomi Kawase)
Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, 2006/Jia Zhang-ke)