

por Ursula Rösele
Olhando o Paraíso
Em seu terceiro filme, desta vez um curta-metragem de menos de 10 minutos de duração, Kawase mantém aquela que é, provavelmente, a essência maior de seu cinema: a natureza como catalisador e referência maior de sua visão de mundo. Independente do que há de negativo, existe uma vida pulsante de grandeza inestimável, – parafraseando Fernando Pessoa , que diz: “quando eu morrer, as flores florirão da mesma maneira” - ; este paraíso do qual fala Kawase está na natureza, neste lugar único que se encontra além de nossas pretensões.
Olhando o Paraíso registra um primeiro contato da diretora com um cinema – na impossibilidade de nos livrarmos de nomenclaturas redutoras – experimental, no qual ela expande seus olhares e faz um jogo com o áudio e a imagem, propiciando uma experiência sensorial diferente da protagonizada em seus dois filmes anteriores, em que o off e a fala da avó de certa maneira nos conduziam a um tipo linear de compreensão narrativa.
O som de uma secretária eletrônica – aparentemente da casa de Kawase – funde-se com o fogo aceso que sua avó maneja para queimar o que parecem ser papéis. Desta vez, o uso do preto e branco e da câmera lenta. O cinema de Kawase é um cinema do palpável. Ela se aproxima tanto dos objetos e pessoas que deixa a sensação de que podemos tocá-las, ou como no filme em questão, que o fogo poderá nos queimar.
Olhando o Paraíso é dividido em duas “partes”: a natureza, sempre em cor; sua avó queimando papel em preto e branco; e o retorno à cor, em momentos em que a avó se funde com os elementos naturais, senta em um barranco e se põe a olhar o céu. O entremeio entre ambas situações se dá num curioso corte que Kawase faz, uma espécie de wipe feito no ato de rasgar um jornal pela sua avó.
Daí passamos a um território já reconhecível, o jardim da avó de Kawase. Outra sequência que denota a forte influência da fotografia em sua obra, em que Kawase divide as cenas em frames, fazendo um quadro a quadro com fotografias estáticas da avó no jardim, como que rememorando os primórdios da descoberta das possibilidades de reprodução da imagem em movimento.
Quando pensamos não mais nos surpreender, eis que surge um plano de uma beleza sem igual. Isto ocorre num momento em que a avó é enquadrada de noite apontando para o céu e Kawase surge brincando e pula por cima da avó. Ambas estão conectadas com a natureza e completamente à vontade na presença da câmera, elemento fundamental da vida de Kawase e de um cinema sempre disposto a nos convidar a esta imersão.
Sol Poente
Sol Poente é o média que fecha o que podemos chamar de “trilogia da avó”, composta pelos filmes Katatsumori, Olhando o Paraíso e Sol Poente. Claro, seu primeiro filme também é todo pontuado pelo off de sua conversa com a avó, mas seu foco está na busca pelo pai que abandonou Kawase na infância.
Em Sol Poente há um ar ainda mais leve e despretencioso, voltamos ao seu “cinema-diário” no qual seus offs são um constante desaguar em desabafos, comentários e inquietudes. A natureza segue firme como componente principal de tudo aquilo que parece mover Kawase e passeamos com sua câmera pelo pomar da avó, sua plantação de tomates e a chuva. Há um sequência em que Kawase passa por alguns tomates dispostos em uma mureta e pára em um que parece gêmeo, colado em outro. Ela brinca com ele, gira de maneira a aludir uma bunda e o coloca de volta no chão; assim como o fez Agnès Varda em O Catador e Catadora ao descobrir, em uma plantação de batatas, uma “gêmea” cujo formato era o de um coração.
A avó aparece já familiarizada com a câmera constante da neta; ri para ela, pede que se afaste um pouco devido à extrema proximidade que a faz bater a cabeça no aparelho umas três vezes e depois as vemos protagonizando um momento tenso que parece quebrar de forma contundente as impressões deixadas por Kawase de sua relação com a avó até então. A avó pergunta por qual razão a neta nunca sorri para ela, somente para estranhos. Pergunta o por quê da neta sempre insistir que ela sorria para a câmera e diz saber que a relação de Kawase com o avô é muito melhor e que a neta faz reclamações da avó para ele. De repente esse cinema frugal, doce, abre espaço para instantes de sinceridade e tensão. A câmera, fiel à sua condutora, segue ligada, acompanha o som das lágrimas de Kawase e todo o processo aparentemente frequente de desentendimento das duas parentes.
Tais estratégias tornam o cinema da cineasta ainda mais instigante. Um cinema – digamos – poético, contemplativo, já não era novidade há 14 anos atrás e muito menos nos dias de hoje, em que vemos diversos diretores exercitando o olhar das mais diversas maneiras. O cinema de Kawase se diferencia, ou se destaca – como preferirem – no que ele tem de mais puro, que é uma fidelidade tamanha com a ideia do registro, em que – independente de atuação ou não, de naturalidade e realismo ou não – Kawase parece atrelada como se no cordão umbilical que não pôde desfrutar na inexistência da relação com a mãe.
O carinho está expresso ali, na câmera que cola em sua avó quase como que num esforço para beijá-la, na cena em que a avó come e a câmera bate em sua testa, observa seu ato de levar a comida à boca pacientemente ou na inexistência do zoom. Kawase não pretende que somente a câmera se aproxime, ela caminha, vai até os personagens sem parcimônia, sem receio de denunciar sua presença. Nesse processo, tudo é permitido: o tremor da câmera, o ajuste de foco quando da aproximação ou distanciamento, o choque da câmera com o objeto.
A ausência completa do avô também é um fato curioso. Somente neste filme ele é mencionado, como se até então inexistisse. Apesar dos desentendimentos de Kawase com a avó, é a figura feminina que parece interessá-la, essa busca pelo útero, esse olhar dúbio, daquela que por vezes parece tão próxima e por outras tão distante. A avó se queixa das poucas visitas da neta, enquanto temos a impressão do contrário absoluto em seus filmes anteriores. Kawase, ao invés de manter uma imagem ingênua e infantil de que o cinema é o lugar do simulacro, deixa o áudio aberto. Nos desabafos de seus filmes iniciais o áudio aparece somente em formato off, acompanhado por diversas imagens, seja da avó sorrindo enquanto no off ela critica o pai de Kawase, seja da natureza como ponto de equilíbrio, lugar de encontro. Em Sol Poente Kawase fecha a trilogia expondo este outro lugar: apesar da possibilidade de tornar aqueles registros imagens de uma memória desejável de somente boas lembranças, Kawase escancara: há o sorriso, há o pueril, há a doçura, mas o cinema também é lugar da dureza, da dor e do abandono.
*Visto no Indie 2009.
**Para aqueles que não tiveram oportunidade de ver Olhando o Céu, segue seu link no you tube: aqui.
Filmes Citados:
Olhando o Paraíso (Ten, Mitake, 1995/Naomi Kawase)
Sol Poente (Hi Wa Katabuki, 1996/Naomi Kawase)
O Catador e a Catadora (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000/Agnès Varda)