
Passos no Silêncio, de Guto Parente
por Rafael Ciccarini
Uma professora de alemão recebe de um de seus alunos, o pedido para que lhe traduza um poema. A partir dessa premissa um tanto quanto simples, se desenvolve Passos no Silêncio, que na verdade acaba por se mostrar antes uma aventura sensorial pela forma com que Guto Parente dá imagens e sons à jornada interior de sua personagem.
De início ressalte-se a ousadia do diretor ao construir um filme que primeiro anuncia uma linha narrativa, uma história propriamente dita, não para ser o fio condutor do filme, mas para a partir dela fazer o filme derivar, deslizar para direções que vão redimensioná-lo estética e conceitualmente (o plano da corrida da personagem em direção ao canal é brilhante), para, então, retornar ao mote inicial, agora já outro - a tradução é para ela, antes, recriação plena.
Visto na 12ª Mostra de Tiradentes
Filme Citado:
Passos No Silêncio (idem, 2008/Guto Parente)
Noite de Sexta, Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho
por Gabriel Martins
Em Noite de Sexta, Manhã de Sábado, a comunicação é o foco principal. Aqui, o fator moderno se dá na mediação feita pelo celular. É uma história de amor, mas que não deixa de apresentar uma veia irônica no seu tratamento. No começo vemos uma conversa legendada entre pessoas que falam o mesmo idioma e o nosso (português). É Kleber brincando com a prolixidade das pessoas, aquele ‘barulho demais’ do mundo contemporâneo que nos transforma em seres cada vez mais contraditórios (onde foi parar o “falar menos para falar mais?”). Logo depois a conversa é em “língua padrão universal” e mediada. O idioma não é o principal de nenhum dos dois interlocutores e a distância é minimizada artificialmente por este aparelhinho chamado celular que carrega em si todo um significado contextual. O formato, ao que aparenta, é um digital bem surrado (não entro a fundo no assunto, pois, ao que parece, a exibição do filme em Tiradentes não foi fiel à qualidade de finalização) que traz algo de melancólico em cada plano. É tudo muito quadrado, seco, sem vida. Só encontramos vestígios de luz nos olhares dos personagens, que sofrem como todos nós a distância, mas criam para si um alívio artificial. É a onda que se propaga através do oceano e lembra que estamos todos tão perto e tão longe.
Filme Citado:
Noite de Sexta, Manhã de Sábado (idem, 2006/Kleber Mendonça Filho)