Cinema de Garagem – Programa 2

Terra, de Sávio Leite

por Gabriel Martins

 

Em sua obra anterior, Mercúrio, Sávio Leite não me convenceu. Por mais que contenha uma idéia de expressão marginal de animação, o filme não era o bastante para poder provocar algo além da pura experiência visual. Já este novo, Terra, me pegou. Se a proposta de retratar os planetas (presentes como títulos de outras obras do realizador) nos possibilita vislumbrar a alguma alusão ou referência, pode-se dizer que uma animação conturbada e caótica como esta consegue compactar algum tipo de experiência possível de ser filosofada sobre o nosso planeta. Narrada de forma instigante por Paulo César Peréio, a animação ainda se utiliza de uma trilha tensa (PexBaa), que nos coloca o tempo todo na vertigem da animação ali feita. A sensação é a de um caderno com desenhos sobre desenhos, a de complementaridade do traço ao mesmo tempo em que este próprio é subvertido em uma animação que não necessita de qualquer esclarecimento contextual: ela simplesmente existe. No todo, Terra propõe uma aproximação da realização da obra que nos traz a ausência de um começo e de um fim, como se o processo fosse eterno. E com isso, o nome “Terra” se encontra devidamente apropriado, titulando uma representação que, acima de tudo, propõe uma constante soma de traços e idéias - sendo que as idéias são, na verdade, os próprios traços.

 

*Visto no 2º CineBH.

 

Filmes Citados:
Terra (idem, 2008 – Sávio Leite)

 

Nº 27, de Marcelo Lordello

por Marcelo Miranda

Imagine um filme de Robert Bresson em que o protagonista tem uma dor de barriga na escola, suja-se no banheiro e entra em estado de choque ao tentar evitar que seus colegas entrem a qualquer custo. Guardadas as proporções, é mais ou menos essa idéia que se sobressai neste curioso curta, em que o ascetismo da encenação, a falsa inexpressividade do ator e os longos planos o tornam um trabalho peculiar e de estética bem pensada. Lordello faz de uma situação banal (e passível de ser o pesadelo de qualquer adolescente) um exercício de linguagem e austeridade, que, mesmo com o claro rigor que emana de suas imagens, deixa transparecer certa liberdade na realização, ainda que o controle das cenas por vezes pareça sufocar a proposta.

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

Filme Citado: 

Nº 27 (idem, 2008/ Marcelo Lordello)

 

Nº 27 de Marcelo Lordello

por Gabriel Martins

 

Notas rápidas sobre Nº 27, revisto na Cine OP: 

 

- Quem se mela, na verdade, é o espectador. Em poucos momentos é possível entrar tanto na pele de um personagem. Tudo isso por causa de um belo uso do extra-campo: ouvimos sempre um som vindo de fora, os outros personagens reagindo de fora para o nosso personagem de dentro. A pressão fica sempre à nossa volta.

 

- No segundo bloco, ele com os pais, novamente o extra-campo age. Ninguém ali, seja professor, pai ou mãe, sabe traduzir ou entender a vergonha - só ele e nós.

 

- Belíssima câmera lenta. O garoto some no meio de uma multidão, um outro garoto passa com a camisa melada, uma garota se solidariza. Um plano quase Gus Van Sant, mas muito brasileiro. Ao espectador resta um silêncio tanto de constrangimento como de compartilhamento. Grande filme.


*Visto na 4ª CineOP.

 

Filme Citado: 

Nº 27 (idem, 2008/ Marcelo Lordello)

 

O Dia em Que Não Matei Bertrand, de L.C. Oliveira Jr. E Ives Rosenfeld

por Rafael Ciccarini

Interessante no curta de Ives Rosenfeld e Luis Carlos Oliveira Jr. a forma como os diretores lidam com todo um imaginário que circunda o universo do conto que resolveram filmar, de Sérgio Sant’Anna. Ao contrário de tentar de alguma forma escapar do gênero e todas as duas derivações, o filme parece tomá-las como referência (não como apoio), tentando encontrar sua singularidade em sutilezas da encenação, no seu rigor de concepção.

Para que a interiorização desse imaginário em mise-en-scène funcione, parece fundamental o jogo como próprio título do filme e suas ambivalências: de alguma forma ele já nos antecipa o que acontecerá (ou o que não acontecerá), mas também permite uma série de outras interpretações, como um possível pastiche com esse já aludido universo, o que acaba gerando uma expectativa curiosa em relação ao que se verá na tela: de que se trata, afinal, esse filme?

A expectativa é necessária para que se abra terreno para observação da mise-en-scène em sua nuance: há uma espécie de integração de corpo, espaço e tempo que dão força às imagens, planos e durações. Fica na cabeça o personagem e seu revólver, atirando sem balas, depois colocando, uma a uma, as balas no tambor; aí há uma série de questões e símbolos (cinematográficos e não) em jogo, mas interessa aqui o fato de que, sabendo do desfecho de antemão, a cena deixa de ser “apreensiva” no sentido do thriller clássico e passa a funcionar mais como duração, como presente de uma relação fragmentária entre o homem e um objeto tão pleno de significações como um revólver.

Por fim, se O Dia Em Que Não Matei Bertrand também pode ser visto como um filme sobre a solidão, a mesma não está em dramatizações repetitivas, mas, sobretudo, nas imagens que constrói a partir desse dia em que, como todos os outros, aliás, o personagem acabou por não matar o tal Bertrand.

 *Visto na 12ª Mostra de Tiradentes

Filme Citado:

O Dia em que Não Matei Bertrand (idem, 2008/L.C. Oliveira Jr. E Ives Rosenfeld)

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