“Kinatay”, “Tirador” e “A professora”: desconstrução da realidade

por Leonardo Amaral

 

Brillante Mendoza é um desconstrutor da realidade.  E o é exatamente por não acreditar que o real exista em tela: em algumas vezes, o cineasta já afirmou que não acredita em real no cinema, mas crê que somente a realidade pode dar munição e força à imagem que ele propõe como cinema. Mendoza busca a tensão através da mise-en-scène radical de seus filmes. A câmera na mão ganha outro sentido dentro de toda aquela atmosfera de Manila, com sua gente e seus problemas. Aparentemente, seria mais um tipo de filme que explora a já recursiva estética dos países subdesenvolvidos. No entanto, é tamanha a força e presença da câmera, que ela retira qualquer tipo de denúncia (mesmo envolvimento político – em um sentido de discurso) que possa haver ali: o que existe é uma operação que busca a tensão por meio da urgência da cena – como no começo de Tirador – ou impacto (por exemplo, dos momentos da morte e esquartejamento da prostituta em Kinatay).

 

As imagens de Mendoza são quadros vivos, imersos dentro da realidade filipina, seja de violência, de pobreza, seja dos próprios habitantes daquele universo. Todavia, há sempre uma negação da estética realista baziniana exatamente por negá-la pela montagem, tensa e entrecortada. No inicio de Kinatay, Mendoza coloca a câmera nas ruas, se mistura ao povo, aos carros, às barracas de verduras, no açougue e não se prende a personagem algum. Após o momento em que Coco Martin entra dentro do carro junto da prostituta, a ‘narrativa’ se concentra naquele micro-universo para que o cineasta filipino construa, dentro de todo esse sentido de real, um filme de gênero que não teme o brutal e o leva até as últimas consequências.

 

O contrário ocorre em Tirador: a perseguição policial dentro da favela de Manila parece dar a impressão de que o filme se concentrará nesse pequeno espaço claustrofóbico. No entanto, após a câmera urgente passar por cada canto do local, Mendoza abre para um grande espaço da rua, uma procissão católica, repleta de pessoas. Ela sai do microcosmo para o macro, da fotografia por vezes escura, subexposta, para estourá-la completamente no sol da cidade. Em Tirador não existem personagens narrativos, existe uma narrativa em que o espaço é quem dita o ritmo e ao qual somos inseridos pela tensão e impactos de Brillante (como, por exemplo, na cena em que uma das personagens procura a dentadura em meio á lama e dejetos de um esgoto a céu-aberto).

 

O contraponto dessa imagem urbano e urgente está em A professora, um dos primeiros filmes de Mendoza. Há um movimento contrário aqui: saímos para a cidade para ganhar o campo, uma espécie de êxodo que pede uma mise-en-scène mais contemplativa, onde o tempo ganha um outro de tipo de status quo. Uma professora precisa cruzar toda uma zona rural para ensinar pessoas mais velhas a ler e escrever para que essas possam votar. Agora, o diretor aposta num filme-processo em que o que há é, sobretudo, o caminho dessa jovem professora e seu pai para chegar a um outro local no meio do nada, onde pessoas aguardam as instruções para o aprendizado do voto.

 

Outra vez a realidade forte dentro da obra de Brillante, personagens recriados por gente dali mesmo, que reencenam seus papeis como se vivessem a vida frente uma lente de cinema, algo que poderíamos dizer estar entre o cinema-verité de Jean Rouch ou as fabulações propostas por Abbas Kiarostami. No entanto, o estilo do filipino se impõe de sobremaneira: ele tem um grande cuidado estético com o detalhe, com a parte que diz sobre o todo. A câmera colocada na altura dos pés é muito mais do que um artifício, é também a inquietação dessa, sempre ávida pelo movimentos: os personagens de Mendoza são, sobretudo, pessoas que caminham, que necessitam andar, fugir, correr para viver.

 

De alguma maneira, essa característica diz muito dos entornos e contornos que se mostram em camadas nesses três filmes do cineasta. É como se o cinema ali fosse muito mais que uma forma de expressão, fosse realmente uma questão de sobrevivência. Brillante parte da realidade para recriá-la, suas imagens são quadros vivos e pulsantes, capazes de ir de uma proposta simples e um de fato histórico (as eleições presidenciais de A professora), ao cinema de gênero de Kinatay, sem deixar de refletir em  momento algum sobre as questões sociais que permeiam todo o país – caso de Tirador. Diante de tudo isso, é possível dizer de um cinema que não recorre a teses, não tem intuito discursivo: o que ele realmente quer são imagens fortes que constroem um espaço, seja ele fascinante e impactante, no qual a câmera, mais do que aparato de registro, é o personagem principal.

 

*Visto no Indie 2009.

 

Filmes Citados:

A professora (Manoro, 2006 – Brillante Mendoza)

Tirador (Slingshot, 2007 – Brillante Mendoza)

Kinatay (idem, 2009 – Brillante Mendoza)

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