Nanayo, de Naomi Kawase



por Ursula Rösele

Falar do penúltimo filme de Kawase tendo visto apenas seus dois primeiros será uma experiência curiosa. Uma visão que contém um salto de quase 20 anos no tempo, mas de uma cineasta que já trazia em seus filmes iniciais, diversos componentes que ela conseguiria trazer, também, para suas ficções (imagina-se), o que é curioso se pensarmos que seus dois primeiros filmes eram espécies de documentários, ou – nas palavras de Kawase – “filmes de memória” e Nanayo, uma ficção.

O filme inicia com uma sequência que veríamos somente em seu final, prenunciando alguns personagens que viríamos a reconhecer em seu durante. Uma jovem, Saiko, chega à Tailândia e – em um inglês quase incompreensível – tenta descobrir como chegar a um hotel. Caminha pela cidade, repleta de barracas, carroças, bicicletas, transeuntes, ambulantes e o que mais se pensar, enquanto a câmera na mão a acompanha a todo tempo, em planos difíceis de não nos remeterem a Encontros e Desencontros de outra cineasta, Sofia Coppola.

Duas características chamam a atenção no cinema de Kawase: talvez a maior, a calma impressionante com que conduz seus planos. E ao utilizar o termo calma, a ideia não é fazer uma espécie de alusão ao ‘tempo morto’ como de Yazujiro Ozu, mas da percepção de uma maneira plácida de conduzir o olhar. Outra característica é a utilização constante da câmera na mão e como ela o faz. A todo tempo a câmera caminha com os personagens e os observa com total paciência à espera de seus movimentos.  E essa câmera jamais é urgente; muito pelo contrário, ela caminha com a sutileza de uma gueixa, enfatizando momentaneamente seus movimentos, como nas sequências em que a câmera está enquadrada atrás de uma árvore ou na brecha entre duas delas, observando os personagens ao longe. Com as devidas proporções, este tipo de utilização lembrou outra mulher do cinema, Isabel Coixet em Minha Vida sem Mim, que faz um movimento semelhante, já em sua primeira sequência, em que a protagonista aparece na chuva (outro elemento sempre presente nos filmes de Kawase) e a câmera na mão a acompanha o tempo todo.

Nanayo não se preocupa com explicações banais. Estamos em um terreno onde o caminho natural dos homens é tornarem-se monges, a natureza toda nos circunda, fornecendo território pacífico para as massagens tailandesas, que são a essência dessa aparente busca do filme. Saiko pega um taxi e solicita que a leve a um hotel. Adormece e acorda em meio à floresta, com o taxista impaciente pedindo-a que saia do taxi na língua incompreensível para Saiko. Ao fugir, ela vai parar em uma casa enorme e encontrar uma massagista, seu filho pequeno e um francês aprendiz das massagens. Mergulhamos, portanto, em uma intensa sensação de Lost in Translation (perdidos na tradução, nome verdadeiro do filme de Coppola), porém, sem a urbanidade e totalmente conduzidos pelo som das árvores, pelo silêncio e pela chuva.

Não sabemos ao certo se aquele era de fato o lugar que Saiko pretendia ir, mas lá ela permanece. Inicia-se um delicado processo entre ela, o francês e os três tailandeses (o taxista, a massagista e seu filho), em que eles dialogam sem entenderem as línguas e acabam por compreenderem-se nesse bailado entre a câmera, seus olhares e a paz que emana daquele lugar que, como haveria de ser, também exala a angústia, o abandono e a melancolia de seus personagens. Filme de extrema delicadeza, que certamente deixou o desejo da visita por sua obra completa.

*Visto no Indie 2009.

Filmes Citados:
Nanayo (idem, 2008/Naomi Kawase)
Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003/Sofia Coppola)
Minha Vida sem Mim (Mi Vida Sin Mí, 2003/Isabel Coixet)  

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